Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

A juventude (r)existe! Desobediência civil e espiritualidade

23-12-2016
“Temos o dever moral de desobedecer a leis injustas”, disse o grande líder religioso e militante pela igualdade dos direitos civis Martin Luther King Jr. 

Desobedecer, verbo que em alguns momentos foi sinônimo de resistência e vida diante de opressões e injustiças gritantes. Dificilmente é aceito como positivo por ser a negação de outro verbo muito caro a nossa cultura de base cristã e que se apresenta como imperativo: obedecer. Mas obedecer por quê? A quem? A qual lei e a qual política? E nesse jogo de poder, quem obedece a quem? 

É bom lembrar que foi através de momentos de Desobediência Civil que a humanidade conquistou importantes vitórias na luta por Direitos Humanos. Foi assim que o pastor protestante Martin Luther King Jr. enfrentou a segregação racial nos Estados Unidos, e foi assim também que o líder indiano Gandhi lutou pela independência do seu país. Gandhi e King foram grandes desobedientes!

A Rede Ecumênica da Juventude compreende a desobediência civil como forma de resistência às leis injustas que massacram e exterminam a juventude – especialmente pobre e negra –, violam os direitos humanos, excluem a população LGBTT, legitimam a intolerância religiosa, atrasam as conquistas em direção a um estado laico de fato e para todxs, perpetuam injustiças socioambientais e monopolizam os meios de comunicação aos interesses de poucos.

Pensando nisso e se solidarizando com as ocupações das escolas pelxs secundaristas, a REJU São Paulo promoveu duas aulas públicas na periferia de Sampa, como forma de resistência aos vários retrocessos que ameaçam a educação como um todo, as políticas públicas para a juventude e o acirramento de discursos de ódio e outras formas de violência propriamente dita.

O primeiro encontro (22/10) sobre Desobediência civil e espiritualidade aconteceu na Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo, e contou com a participação de Douglas “Negro Belchior”, professor e colunista, que introduziu o tema da Desobediência Civil proposta pelo pensador Henry Thoreau, que engloba grandes pacifistas como Tolstói, King, Gandhi e outros. Em sua fala reafirmou o quanto existir, como negro, é resistir com a própria vida. Para enriquecer o diálogo Lira Alli, do Levante Popular da Juventude, ofereceu uma poesia de resistência e uma reflexão acerca da espiritualidade, que transcende religiões e crenças, mas que está pautada no amor, paz e justiça, inspirando assim atos de resistência contra a opressão. Representando a REJU-SP, a colombiana Maryuri Grisales, residente no Brasil onde obteve doutorado em Ciências da Religião, compartilhou um manifesto da desobediência civil escrita por evangélicos (https://issuu.com/vandalizandro/docs/vandalism_cop..., procurando contribuir com o debate sobre o papel da juventude religiosa-espiritualista e políticas públicas. 

O segundo encontro (10/12) trouxe como pauta o subtítulo “Nossos corpos resistem”. Dessa vez, para fortalecer a luta pela democratização das comunicações, aconteceu na Rádio comunitária Cantareira, na região da Brasilândia/Cantareira. Com a mediação do psicólogo e espiritualista Fraklin Felix, da REJU-SP, o diálogo ganhou com a experiência pessoal e de trabalho de resistência por meio do próprio corpo, como disse Simmy Lahat, travesti e ex-coordenadora-geral de direitos LGBT na Secretaria de Direitos Humanos e atual coordenadora do Programa de Transcidadania do município de São Paulo. Também participou Paola Leal Nosella, Levante Popular da Juventude, relatando as experiências de resistência em forma de “escrachos” contra políticos acusados de corrupção e militares culpados por crimes de tortura durante a Ditadura Militar e que permanecem impunes. Marcelo Rocha, 19, contou sua história como evangélico e negro na periferia de Mauá, região do ABC Paulista, e os desafios de lidar com a militância pelos direitos e contra o racismo, numa sociedade em que ser pretx já é uma desobediência. Também narrou o entusiasmo dxs secundaristas nas ocupações das escolas, que protestavam pacificamente e com a própria presença contra o desmonte da educação, a precarização do Ensino Médio e a PEC 55. Por fim, nosso anfitrião Daniel Mariano, de origem protestante, que atua na rádio e na Brasilândia comunicou um pouco dos desafios que a rádio enfrenta no sentido de resistir às diversas limitações que a legislação impõe a todas as rádios comunitárias, que transitam entre a condição de “pirata” ou “legal”, dependendo da classificação que os governantes em exercício resolvam aplicar. Desde cedo, soube o que era enfrentar também as legislações sobre seu corpo e cabelos de negro, mesmo nos espaços de fé.

Mais do que “ensinar” a juventude, essas aulas públicas tem sido, na verdade, um aprendizado em conjunto, a partir da vida e da (r)existência da própria juventude que insiste em ocupar seu lugar de direito com inspiração em sua fé, espiritualidade e na letra de Belchior, o cantor: 

O que transforma o velho no novo bendito fruto do povo será.
E a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter; 
É nunca fazer nada que o mestre mandar.

Sempre desobedecer. Nunca reverenciar.

(Belchior - Como o diabo gosta)