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Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Ancestralidade versus tendências e modismos: A banalização do Sagrado Afro?

29-07-2016

Atualmente, virou moda dizer-se simpatizante da cultura africana ou afrodescendente. [1] Pretende-se problematizar, brevemente, considerações referentes a duas matérias, uma publicada em agosto de 2015, “Umbanda e candomblé conquistam jovens descolados no Brasil”[2], e outra atualizada no inicio deste ano na revista Istoé, com o titulo: “As religiões afro conquistam a classe média” [3].

Pontua-se que ambas as matérias tem um fator em comum, colocado em evidência: o maior poder financeiro e escolaridade dos ditos membros destas religiões e o aumento da participação de pessoas brancas (47% do total, segundo o IBGE de 2010). 

De fato há pessoas com grande poder aquisitivo e escolaridade superior adeptos da Umbanda [4] e do Candomblé [5]. Entretanto, é questionável se ao potencializar tais elementos como um “benefício e qualidade” não seria descaracterizar princípios básicos destes cultos como colocar-se a serviço do Sagrado que está presente na natureza e nas pessoas?  Se a classe média está envolvida com determinada religião isto torna a crença mais correta?

 Possuindo o candomblé e a umbanda inúmeros fiéis, historicamente, das classes pobres, é isto que tornava (e ainda torna) a religião errada e marginal? Percebe-se que a questão das intolerâncias perpassa o debate sobre racismo e do critério econômico entre ter e ser.

Em um dos referidos artigos cita-se que “é compreensível que a hierarquia horizontal da umbanda seja tão confortável para os novos adeptos”. Ao ser um ou uma praticante da Umbanda, esta afirmação não possui sentido.

O culto é hierárquico, se deve obediência à figura de autoridade conhecida como Pai ou Mãe de “Santo”, no caso da Umbanda, ou Bàbálóòrìsà ou Ìyálóòrìsà no candomblé, devido tamanha as responsabilidades a estes conferidas, sendo os zeladores das regras e condutas de todos os rituais, já que pressupõe que o mais “velho” é detentor de maior vivência e sabedoria, preparado e predestinado para as atribuições do sacerdócio, podendo assim consultar as orientações da Divindade através de seu Oráculo Divinatório.

Todas as pessoas podem vir a participar destas religiões já que o Òrìṣà (Orixá) [6] Inquice [7] ou Vodun [8], não escolhe alguém por sua condição étnica, financeira, escolaridade ou orientação sexual.

Mas, os cultos afros não são apenas “música, dança e comida” conforme referido. São práticas e saberes ancestrais que lidam com as forças veneráveis da Natureza, com entidades e Divindades reais para aqueles que acreditam.

Cultuar Òrìṣà (Orixá) é algo que requer responsabilidade, dedicação, paciência, vivência e principalmente mudança de postura, ou Ìwà, o caráter.

As “Posturas descoladas” como enaltecidas nestas matérias se relacionados aos Saberes e práticas Ancestrais de todos os praticantes dos inúmeros cultos contemplados nas religiões de matriz africana, poderiam ser comparados como azeite de dendê e a água: não se misturam entre si. Informações como estas não possui a finalidade que talvez se propuseram de enaltecer a beleza e resistência ancestral da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Mesmo com o processo histórico do racismo, marginalização, sincretismo e perseguição, os cultos resistiram e resistem até a atualidade a um “preço” muito caro: Suor e sangue de negras e negros aqui escravizados. A este legado cabe o respeito e reconhecimento. O candomblé não determina em nenhum momento que seus adeptos possuam determinada cor de pele ou origem, mas, mesmo com as influências cristãs e conceitos ocidentais, possui uma essência: a cultura e religiosidade negra. Manifestada nas cantigas sagradas, ritos, no modo de se relacionar com as plantas, água e animais, cozinhar e em diversos elementos que são característicos destas tradições.

Ìbáà tínrín, okùn òtítọ́ kì í já...

“Ainda que frágil, o fio da verdade nunca quebra...”.


Alexandre Magno da Glória

Candomblecista iniciado para o Òrìṣà Ògún, integrante da Rede Ecumênica da Juventude e do Fórum Permanente de Religiões de Matriz Africana da cidade de São Paulo.

Foto: Fernanda Scherer


[1] Geledés - Está na moda ser preto, desde que você não seja preto. Disponível em < http://www.geledes.org.br/esta-na-moda-ser-preto-d...

[2] Marie Claire - Umbanda e candomblé conquistam jovens descolados no Brasil. Disponível em < http://revistamarieclaire.globo.com/ Comportamento/noticia/ 2015/08/com-festas-e-sem-regras-tradicionais-umbanda-e-candomble-conquistam-jovens-descolados-no-brasil.html>.

[3] Istoé - As religiões afro conquistam a classe média. Disponível em < http://istoe.com.br/374654_AS+RELIGIOES  +AFRO+  CONQUISTAM  +A+CLASSE+MEDIA/>

[4] Umbanda: Religião brasileira, formada através de elementos de outras religiões como o candomblé, catolicismo, espiritismo e elementos indígenas, no entanto, possui características e liturgia própria interagindo com as entidades: Preto Velho, Caboclo, Baiano, Marinheiro, Exú catiço, Pombogira, entre outros.

[5] Candomblé: Religião de matriz africana criada no Brasil por negros que aqui foram escravizados, oriundos principalmente, de países atualmente conhecidos como Angola, Nigéria e República do Benim. Cultuam-se os Orixás, Voduns ou Inquices, dependendo da "nação” *. Termo genérico utilizado para definir estes diferentes cultos.

 * (Yorùbá/Nagô, Jeje e Angola, possuindo diversos subgrupos dentro destes).

[6] Òrìṣà: Divindades representadas pelas energias da natureza, forças que alimentam a vida na terra (...). Possuem diversos nomes de acordo com sua natureza. (BENISTE, José. Dicionário Yorubá - Português. pg. 592. 2º Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014).

[7] Inquices: Divindades cultuadas no candomblé da “nação” Angola.

[8] Voduns: Divindades cultuadas no candomblé de “nação” Jêje. Originários dos cultos dos povos Ewe-Fon de países hoje conhecidos como Gana, Togo e Benim.