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Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Campanha do agasalho: o buraco é mais embaixo

17-06-2016

Por Danilo Amaral - REJU SP

Todo ano é a mesma coisa, basta o inverno se aproximar, para que a solidariedade com as pessoas em situação de rua inunde o coração das pessoas. Parece até cena de filme. Neva lá fora. Através da janela se observa um homem descalço com seu cachorro, os dois tremem de frio. Uma gentil senhora abre a porta de sua casa, corre em direção a ele e lhe oferece um agasalho. Ele agradecido e sem alguns dentes, sorri amarelamente, enquanto olha para o copo de chocolate quente que ela carrega na mão. Ele se vira e sai. Ouve um chamado. Vira-se rapidamente. Uma criança corre em sua direção. Um pequeno agasalho na mão. Cobre o cachorro. Todos se olham. O menino abraça o cachorro. A senhora puxa o menino pela mão e voltam para casa. O homem segue rua afora. O cachorro segue atrás. Saem de cena.

Fenômeno parecido a este só se vê com a chegada do Natal, em que os orfanatos precisam encontrar espaços novos para tantos presentes acumulados. Convenhamos, aquelas dúzias de brinquedos maneiros, montanhas de roupas novas, abraços quentinhos e sorrisos escancarados apenas essa época do ano? No restante do ano se espera novamente pelo Natal? Um dia desses, de temperatura mais baixa desde o fim da última era glacial, e coisa e tal, uma amiga se espantou quando uma dessas pessoas em situação de rua recusou veementemente o casaco que ela havia lhe oferecido. Perguntei quem era ele, ela não sabia. De onde vinha, ela não sabia. Porque estava ali, ela não sabia. Se tinha família, ela não sabia. Bom, a minha mãe também me ensinou a não aceitar nada de estranhos na rua.

Não me lembro de durante a última epidemia de dengue, chikungunya e zika vírus, ter visto pessoas correndo de um lado para o outro a fazer campanhas de arrecadação de repelentes para os habitantes das ruas. Talvez tenha sido porque as pessoas não possuem um repelente a mais em casa que possam deixar sempre na bolsa para oferecer ao se deparar com alguém em risco. Talvez seja porque a campanha do verão ainda não pegou como deveria. Ou talvez seja só a minha memória mesmo.

Centenas e mais centenas de cobertores são entregues, sempre deixando aquela pulga atrás da orelha (ou pelo menos deveria): Onde será que essa pessoa irá dormir? Muitas vezes, saber que não será na sua porta, já garante que a distribuição continue madrugada adentro. Uma matéria no jornal denuncia a ação da Guarda Civil Metropolitana, que retira os papelões e colchões dos moradores de rua. Indignação. “Mas como a GCM pôde fazer isso logo no inverno?”, “não viram as estatísticas da pastoral?”, “sabe quantos moradores de rua já morreram por causa do frio?”. Indignação prossegue.

Em minha cabeça, fervilhantes perguntas me provocam: “será que nunca me dei conta de que a GCM faz isso em todas as estações e durante todos os dias do ano?”, “que horas mesmo fecha a porta da minha igreja?”, “e a do seu centro, terreiro, casa de oração?”, “de que lado mesmo eu estava, quando aquele movimento de luta por moradia atrapalhou o trânsito da cidade?”, “eu tenho um casaco a mais na mochila?”, “de que lado eu estou agora?”.

Só em São Paulo existem 2 milhões de metros quadrados de imóveis ou terrenos sem uso. Quantas pessoas em situação de rua cabem neste espaço todo? Outro dia li por aí que ninguém na rua morre de frio, se morre é de especulação imobiliária. Parei para pensar no número 8.706, que era o número de pessoas em situação de rua no ano 2000, hoje já ultrapassam 15.905, e no imenso número de prédios públicos e privados que estão ociosos, sem falar na quantidade de templos das mais diversas religiões que pregam o amor ao próximo, o Templo de Salomão por exemplo, sozinho conseguiria abrigar cerca de 10.000 pessoas. Parei de pensar.

Talvez isso seja só coisa da minha cabeça, ou vai ver, os órfãos só apareçam mesmo em janelas cantando músicas natalinas e as pessoas em situação de rua sejam apenas mais um fenômeno que chega com a frente fria.

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