Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

Consciência negra e o abate religioso

20-11-2016

Com um legado de quase 400 anos de escravidão, racismo, desigualdades, demonização, perseguições, estupros, marginalização e todos os tipos de desumanidades e violências praticadas contra negras e negros em solo brasileiro, ainda é rotina ouvirmos a indagação; “Por que consciência negra?”.

Mesmo sendo a maioria da população, se considerar a população economicamente ativa em 2013, segundo o IBGE, a população branca possuía rendimento médio 74,2% superior à população preta e parda. Morrem 153,4% mais negros do que brancos por homicídios no Brasil segundo o Mapa da Violência 2013. Quando comparado o número de homicídios entre a população jovem no mesmo período, o número sobe para 237,4% mais mortes de negros do que brancos. Mesmo as diferenças demográficas e socioeconômicas não explicam tamanha diferença entre os números registrados. 

A cultura negra é profundamente marcante e estruturante na construção da identidade da população brasileira, seja na dança, música, culinária, religiosidade, idioma e costumes, entretanto, na formação educacional muitos desconhecem a importância e trajetória de nomes como Carolina Maria de Jesus, Cruz e Souza, Grande Otelo, Dandara, Luísa Mahin, entre diversas outras personalidades.

Dado o contexto, um dos maiores símbolos de resistência e preservação da cultura e valores afros são as religiões de matriz africana. Mesmo que segundo o IBGE de 2010, 47% do total dos adeptos destas tradições são brancos, os rituais, cantigas, culinária, Divindades e saberes é indiscutivelmente legado das práticas negras do continente Mãe que foram aqui preservadas.

Está para ser pautado no STF o julgamento do recurso a fim de discutir se o abatimento de animais por motivos religiosos fere a Constituição Federal. Tal medida tenta infringir o caráter Laico do Estado e criminalizar as tradições afro-religiosas. Falsos argumentos como a proteção ambiental e preocupação com os animais não se sustentam, tendo em vista que o Brasil é um dos maiores exportadores de carne animal do mundo. Milhares de animais são abatidos e comercializados todos os dias nos frigoríficos do país para a indústria de alimentos, assim como são abatidos para as indústrias do couro, farmacêutica e de cosméticos, o que não levanta nenhuma preocupação e revolta na maioria da população que se beneficia de tais praticas.

Próximo ao término do ano e a chegada das festividades natalinas, os supermercados já se preparam para a venda de milhares de chester's, perus, suínos entre outros, assim como ocorre nas toneladas de peixes para a sexta-feira santa todos os anos o que é tido como costume. No entanto, quando falamos de abate religioso nas tradições de matriz africana que não causam sofrimento ao animal, que depois de oferecido com respeito é cozinhado e servido para os adeptos como forma de partilha, percebemos a grande hipocrisia presente na sociedade e o constante racismo religioso, muitas vezes de forma velada.

Para o Dr. Hédio Silva Jr., advogado, mestre e doutor em direito pela PUC-SP e ex-secretário da Justiça do Estado de São Paulo, “O abate praticado pelas religiões afro-brasileiras, desde que sem excesso ou crueldade, nada tem de ilegal ou inconstitucional. Vale lembrar que a Constituição Federal assegura a liberdade de culto e de liturgia, proíbe o Estado de embaraçar o funcionamento das cerimônias religiosas, protege as manifestações culturais e prescreve a valorização da diversidade étnica.”.

Faz-se cada vez mais urgente discutirmos e nos rebelarmos contra o racismo estruturante presente no cotidiano, que mata, criminaliza, desqualifica e persegue as tradições africanas e os indivíduos de melanina acentuada, fruto de um processo histórico marcado pelo ódio e subjugação do povo preto. 

Consciência, empoderamento e dignidade hoje, amanhã e sempre!

Alexandre Magno da Glória

Graduando em engenharia ambiental, integrante da REJU e membro do

Fórum Permanente de Religiões de Matriz Africana  da Cidade de São Paulo.


Foto:  Fernanda Scherer | Fotografia e Vídeo

Hédio Silva Jr. STF, vaquejada e abate religioso.

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