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Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Crente safado

Por Danilo Lago¹

Domingo de sol raquítico e ônibus anêmico. Sentei no fundo, na última fileira, no assento do meio. Do meu lado direito, lá no canto, escorado na janela, havia um homem de corpo frágil metido num terno bege, camisa branca, gravata vermelha, sapatos brilhantes. No colo, uma bíblia. Uma baita bíblia gil-lancaster. Reparou que eu também estava com uma, menor, da sbb, nas mãos. Nada me disse, tremeu a cabeça e voltou a fiscalizar a calçada.

Quando o ônibus passou na frente de uma igreja batista, ele se inquietou, disse que aquilo era um absurdo, uma safadeza inadmissível, verdadeira blasfêmia, e me chamou a atenção, apontando pra fora.

Mirei na calçada da igreja procurando o absurdo, a tal safadeza, aquela abominação perante os olhos daquele homem e do seu deus. Mulheres conversavam, crianças corriam e gargalhavam. Nada de anormal.

O homem me encarava, esperando uma severa análise teológica, algumas palavras de repreensão, pedindo pra confirmar a invisível promiscuidade daquela cena.

Tentei o silêncio, respondendo com as sobrancelhas. Não foi suficiente, ele reclamou, insistiu se eu não estava cego por não reparar naquela sem-vergonhice.

Não tinha visto nada demais, respondi, apenas 3 ou 4 mulheres conversando e crianças brincando. Nenhuma safadeza, sacanagem, esculhambação.

O fariseu se enfureceu, segurou bem forte a bíblia, a levantou, disse que aquelas mulheres eram safadas, estavam com a bíblia na mão e vestiam calça jeans. Roupa de mulher era saia, pra baixo dos joelhos. Saia ou vestido, aliás.

Me desculpe, senhor, mas você já ouviu falar de Jesus de Nazaré, aquele que foi amigo das mulheres, íntimo de Maria de Mágdala, aquele que impediu o apedrejamento de uma acusada de adultério?

Babando, ele se levantou, ficou de frente, perguntou mais uma vez se eu não achava que aquilo era uma grande safadeza, grave desobediência contra o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.

Não desviei daquele olhar inquisidor, disse que não achava nada demais, que não tinha visto nenhum rastro de safadeza naquelas mulheres. Pelo contrário, tinha visto uma espécie de beleza divina que emanava de cada uma delas.

O fogo subiu e enrugou todo o rosto, ele se aproximou ainda mais e me chamou de safado, que eu era que nem elas, um crente safado. Na verdade era pior, era mais safado que todas elas, e que na bíblia, no pentateuco, em deuteronômio, dizia como a mulher deveria se vestir, e homem que apoia mulher que veste calça, roupa de homem, vai pro inferno junto com ela.

Chacoalhei a cabeça, o encarando dos pés aos poucos fios de cabelo e disse que achava estranho ele usar sapatos, calça social, camisa, gravata. Esse não era o padrão bíblico para os homens. O trecho que o fariseu tinha lido falava apenas sobre túnicas. Perguntei se ele tinha alguma preferida em seu guarda-roupa.

Acho que ele não gostava de túnicas. Me respondeu com um soco na boca do estômago. Caí no chão do ônibus com os bancos girando ao meu redor e aquele olhar faiscado e demoníaco mirado em mim. Tudo foi manchando, borrando, apagando...

Acordei jogado numa caçamba misturado com ratos, lixos, entulhos e uma bíblia rasgada. No corpo, um vestido que passava dos meus joelhos e lambiam os sapatos. O relógio ainda pendurado no pulso, 13h. Perdi o horário do culto.

¹ Membro da REJU São Paulo

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