Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Diálogos em círculos: Juventude Negra e seus direitos

Entre a chamada de tambores africanos e muitas expectativas, iniciou-se na manhã do 1º dia de abril o IV Encontro Afro-Cristão. Olhos e ouvidos estavam ávidos por escutar as palavras do Prof. Dr. José Vicente, reitor e fundador da Faculdade Zumbi dos Palmares, que ministraria a primeira palestra.

Em sua fala o reitor trouxe um painel mais abrangente do que o esperado. Lembrou dos amigos que, com espírito solidário, auxiliaram no processo de construção da Faculdade Zumbi dos Palmares; lembrou as recentes declarações racistas e homofóbicas dos Deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano; informou que o relator do Estatuto da Igualdade Racial não acredita em raças e por isso fez vários cortes no documento final aprovado e por fim apresentou um painel histórico das(os) negras(os) brasileiras(os) desde a alforria até os dias de hoje.

Sua palestra trouxe desafios ao movimento negro, às instituições religiosas e de educação. Para o reitor é preciso que se pense a identidade negra. No Brasil, um país tão misto e tão preconceituoso, quem afinal é o negro? Aquele que tem a pele negra? Ou que apesar da pele clara, tem traços negros no corpo (nariz, cabelo, boca e etc)? Ou a pessoa que mesmo possuindo traços latino-mericanos ou europeus, possui genes africanos? Ou ainda, quem pertence à determinada classe social? Repensar esta categoria – quem é o negro – traz novos desafios para o movimento. O processo de conscientização deverá estender-se a pessoas que nunca se pensariam como negras.

A Igreja também foi convocada pelo Reitor José Vicente a participar deste processo de conscientização, oferecendo seu espaço e incluindo a afro-descendência brasileira na sua teologia e liturgia, além de contribuir para a desconstrução da imagem do negro como “coisa ruim”. Em pleno século XXI, não é mais possível cantar que o meu coração, que era preto, agora é branco porque Cristo o lavou.

A ínfima e depreciada participação da negritude na sociedade em contraposição a maioria desta população no país é alarmante, significativa prova de que há um racismo velado no Brasil. Do contrário, o que explicaria a USP – maior universidade da América Latina – contar com apenas 5 (cinco) professores negros? Ou apenas 1 desembargador negro no estado de São Paulo? Ou a presença de um único bispo negro na Igreja Católica no Brasil? Estes e outros casos, segundo o reitor, são frutos da alforria descompromissada do Estado Brasileiro – que deixou os negros à própria sorte. Dados como este pedem que empresas ditas de “responsabilidade social” incluam neste selo o compromisso com a causa afro-descendente.

Coube a Doutoranda Juliana de Souza ministrar a segunda palestra do dia. A palestrante trouxe como tema principal de sua fala: a identidade negra. A abertura de sua fala emocionou com a projeção do clipe “A vida é Desafio” dos Racionais Mc’s. Juliana Souza também tocou os sentimentos dos presentes ao contar o seguinte relato: “(...) resolvi chamar os homens da Igreja e perguntá-los ‘Quem aqui já foi parado pela polícia’. Dentre as 15 pessoas, os sete negros presentes foram os únicos a levantarem as mãos. Entre eles, um menininho de 12 anos de idade”.

A mídia, a escola, a igreja e os demais segmentos sociais formadores de opinião pública teimam em reafirmar a história de um negro que começa à bordo do navio negreiro e termina com a lei áurea; teimam em construir a imagem de um negro vagabundo, meliante perigoso, digno de suspeitas por parte das autoridades.

Frente a esses fatos e ao tema da música apresentada, a palestrante questiona como pode a juventude negra construir a sua identidade nesta sociedade que lhe castra de todas as possibilidades e fecha-lhe todas as portas? Como o negro será duas vezes melhor se está 100 vezes atrasado? “Ou você é o melhor ou o pior de uma vez” como diz a ácida letra do Rap dos Racionais.

Por isso a doutorando apresenta a necessidade de rever todo o discurso veiculado sobre o negro. Os livros didáticos necessitam incluir a história dos grandes impérios africanos, dos quais descendem os afro-brasileiros; a criminalidade precisa ser vista não apenas como fruto da violência, mas, em última instância, como forma de resistência às privações impostas pela sociedade; além do envolvimento da Igreja e de outros espaços sociais com a cultura negra, afirmando-a e não demonizando e deslegitimando o que vem das terras d’além mar.

Tanto para o reitor da faculdade Zumbi dos Palmares, Prof. José Luiz Vicente, quanto para a Doutorando Juliana Souza, a Igreja tem papel importantíssimo na reconstrução e na afirmação da cultura e da identidade negra. Organismos ecumênicos, como a REJU (Rede Ecumênica da Juventude) e a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço), perceberam de antemão a necessidade de incluir a igreja neste diálogo e por isso apoiaram o IV Encontro Afro-Cristão, promovido pelo Ministério de Ações afirmativas Afro-descendentes da Igreja Metodista, que também contou com o apoio da Faculdade de Teologia, UMESP, EST (Escola Superior de Teologia) e Prefeitura de São Bernardo do Campo. Em continuidade, alguns relatos das Rodas de diálogo, o eixo que movimentou o nosso encontro.

Reflexão sobre as Rodas de diálogos.
Giramos em torno das possibilidades e necessidades de Teologias que abarquem criticamente, desde suas bases de espiritualidade até suas cátedras, a discriminação contra Negros e Negras. Teologias que se façam refletir em atos de justiça e que anunciem os direitos das crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres negras. Teologias com sons de atabaques, kalimbas e bongôs. Teologias que reflitam a história do povo negro para além dos navios Negreiros.  Ao reconhecermos que Teologia é Hermenêutica, experimentamos falar teologicamente de lugares complexos. Arrazoados do que é a experiência humana a partir de seus fenômenos, representações e esperanças.

A liberdade implicada na concepção da inerente pluralidade da Teologia, provocou-nos questões. E como é importante fazer perguntar, inquirir e indagar. Por que mais jovens negros são exterminados em nossas terras? Por que as religiões de matrizes africanas são ininterruptamente demonizadas, em nossas terras, por outras religiões como, por exemplo, os diversos Cristianismos e o Islamismo? Por que a maioria dos analfabetos e miseráveis de nossas terras são negros/as? Por que nas Universidades de nossas terras poucos/as são os/as negros/as docentes e discentes? Como ser cristão/ã, afirmar ser discípulo de um carpinteiro galileu ou proclamar ao próximo: Paz! e permanecer de olhos fechados para as discriminações étnicas em nossos templos, salas de aula, em nossas casas e em nossas terras?

Quando estamos assentados, em círculo, aprendemos que nossas estaturas, nossas fragilidades e nossas esperanças se tocam. Todos/as e em todo lugar temos o que dizer. Teologia é um ato de inclusão complexa, menos eletiva e mais graciosa, re-união de todas as imagens de Deus, de todas as experiências espirituais, todos os Povos e todos os Símbolos. A complexidade foi a marca dos diálogos em círculos, que tivemos em todo encontro. Diálogos propositivos, criativos, críticos e ternos. Espaço para ouvirmos sobre: a) Mulher e seus direitos; b) Populações ribeirinhas e seus direitos; c) Comunidades Quilombolas e seus Direitos; d) Juventude Negra e seus diretos.

Leio o texto na íntegra.

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