Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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ESSA GREVE VEIO PARA ATRAPALHAR

por Manoel Botelho - REJU São Paulo

A sexta-feira de hoje tem sido chamada basicamente de duas maneiras: “dia de greve” ou “dia de trabalho”. Como se essas duas coisas fossem diametralmente opostas. Outras comparações são feitas nesse sentido, como “manifestantes e trabalhadores”. Quando se trata da juventude, as qualificações ainda são piores: “jovens vagabundos” que não entendem da vida, que não querem trabalhar, que isso e aquilo.

O prefeito regional de Pinheiros na capital paulista, Paulo Mathias, teve a coragem de fazer com que seus funcionários dormissem na subprefeitura e ainda disse: “Algumas pessoas resolveram atrapalhar a vida dos outros”, e continua: “nós somos a favor da greve, mas não em dia de trabalho”. Ora, meu caro subprefeito, o que é “atrapalhar a vida dos outros”? Fazer com que o trabalhador não retorne a sua casa é o quê? Seria não atrapalhar a vida? Vida de quem? Dormir na sua própria cama, com sua família, na privacidade do seu lar, não é vida? Quem está atrapalhando a vida de quem? A greve não pode ser em dia de trabalho para não atrapalhar o trabalho, mas atrapalhar a vida do/a trabalhador/a, pode?

A chamada Reforma Trabalhista foi aprovada na câmara dos deputados na madrugada de ontem, dia 27 de abril (e agora o texto segue para o Senado Federal). Essa dita reforma é um dos motivos das paralisações de hoje, por todo o Brasil. Ela segue essa mesma lógica do subprefeito de Pinheiros, a chamada modernização das relações de trabalho, que, na verdade, são facilidades para as empresas empregadoras em detrimento da precarização das relações trabalhistas. Essa reforma quer “não atrapalhar”, mas não atrapalhar quem?

Esse "não atrapalhar" é entendido como "aumentar a produtividade” e as possibilidades de trabalho em detrimento da vida das pessoas. Durma menos, trabalhe mais, não volte à casa se for o caso, mas trabalhe. Viva para trabalhar, pois trabalhar, nessa lógica, deve ser vida.

Pensemos em um dos pontos dessa reforma; por exemplo, a “prevalência do acordado sobre o legislado”. Basta pensar o seguinte: se a legislação em vigor estipula o mínimo de direitos e respeito para os/as empregado/as, não há problema em qualquer coisa negociada em cima disso desde que esses direitos não sejam violados, pois o mínimo já está estabelecido. Contudo, quando você inverte a lógica e estabelece que o acordo está acima da lei (o que a reforma sugere), é nítido que os direitos de quem trabalha serão precarizados, pois o que foi relativizado é justamente o mínimo.

Nós, jovens de todo Brasil, entendemos que a vida vale mais. A vida verdadeira, daquela de quem quer ter tempo com a família, viver em comunidade, ir à feira, à igreja, andar no parque ou até fazer coisas mais simples, como dormir em sua própria cama. Isso não quer dizer que não trabalhamos, ou que não queremos trabalhar, mas quer dizer que o trabalho faz parte da vida, e não ao contrário.

Essa greve geral vai atrapalhar sim, mas atrapalhar quem quer atrapalhar a vida. Por isso nos unimos a todos e todas que decidiram também atrapalhar quem atrapalha a vida, pois entendemos que essa lógica mercadológica e essa imposição sem debate com a sociedade, sem ouvir as diferentes vozes, sem ouvir os trabalhadores e trabalhadoras desse país, é maléfica e só beneficia um lado. Essa reforma trabalhista veio para verdadeiramente atrapalhar ainda mais a vida e nós não aceitamos isso.

Se for pra atrapalhar, que atrapalhemos nós.

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