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Eu, Orlando e Deus

O que significa perceber a voz de Deus? Relembrando nossas experiências do Sagrado, talvez recordemos momentos onde o simples recolher, o colocar-se em silêncio ou mesmo o abrir os ouvidos do coração, transformaram-se em poderosas ou singelas experiências de Deus ou do Mistério que nos transpassa.

Confesso com o filósofo grego Heráclito, que busco continuamente através de meus sentidos poder “ouvir o logos divino em todas as coisas do mundo”, e é exatamente nos sons suaves da voz interior e da terra que posso resgatar a voz de Deus em mim. É bem verdade que eu mesmo vivo a buscar os acordes mais harmoniosos que levem-me a saudade e ao desejo de Deus nas pegadas de meu cotidiano.

Não estou certo se há nisso uma finalidade, pois eu talvez deseje apenas fazer germinar em mim uma disposição íntima, que aguce-me para a escuta de tons melodiosos do que para mim é a música celeste, que se desvela como um canto de libertação, que possa fazer-me transcender as desarmonias que acompanham a patologia da normalidade que quer a todo custo, acostumar-me ao ritmo caótico e sofredor do medo, do desespero e da atrocidade humana.

Sumamente percorrendo o caminho da vida contemplativa nas pegadas dos eremitas, não posso deixar de exaustivamente ouvir as coisas de um dia a dia que me põe em contato com o desafio global desse dado momento histórico, que mesmo diante do eclipse de Deus, como diria Martin Buber, parece nos conclamar ao desenvolvimento de uma espiritualidade profunda, que cresça a partir de uma ética da diversidade e da não-separatividade.

E é justamente nesse caminho, que me deparo algumas vezes com o incompreensível de um Deus que procuro crer e nele viver, me mover e existir conforme anunciaram os poetas e místicos. E, quando me abro para ouvir o mundo, eu mesmo ouço compassos contraditórios de um Deus que sei que é pura e clara luz, mas que na minha experiência também é obscuridade, é sombra, é trevas.

E especialmente diante da mazela atroz que é imposta a nós seres humanos parte da diversidade afetiva e sexual, eu tenho encontrado a razão para afirmar que para mim, não é possível manter apenas uma imagem harmoniosa de Deus, pois lido desde a infância com as desarmonias da minha relação com o divino e passo a entender, como disse João da Cruz, o que é mover-se “do conhecido para o desconhecido, da luz do dia para noite escura da fé”. Sinto então que como teólogo e profissional da espiritualidade, eu acolhi a denúncia da teóloga feminista e mística Dorothee Sölle, que falou daqueles teólogos que eliminam o lado sombrio de Deus e ficam como “playboys teológicos que são impedidos de tornarem-se adultos por aquilo que eles consideram fé”.

E é exatamente quando vou entrando em minha maioridade espiritual como pessoa homoafetiva, que questionei aquilo que chamo de fé, quando um amigo queer indagou-me em uma rede social em virtude do massacre de Orlando, acerca do Deus bondoso e criador que experimento, mas que permite o horror entre suas criaturas. Nesse exato momento passei a experimentar uma noite escura para minha alma e para minha fé, e entrei então em um processo de purificação interior que não sabia se ao fim me reencontraria outra vez com a crença em Deus.

Lancei-me a interpelar: Deus meu, Deus meu! Por que abandonastes os seus meninos em Orlando? Onde estavas quando um de seus filhos agiu como Caim e planejou a morte de muitos de seus outros filhos? Tu ouvistes seus gritos de socorro? Se conhecias o coração de Omar Mateen e seus pesadelos e dúvidas, por que permitistes que suas mãos fossem manchadas de sangue, de sangue inocente? Tu podes ouvir o sangue dos meninos ainda clamando? Como fazer justiça? Deus, quantos Abel’s existem para um Caim? Serei eu, Senhor, a próxima vítima na rua, no parque, no trabalho, na praia ou na igreja?

A verdade é que Deus não respondeu-me, e eu renuncio a explicar teologicamente por qualquer linha ou principio o que aconteceu aos meninos em Orlando! E ainda dispenso qualquer explicação por mais fenomenal que possa ser, do porquê de almas inocentes serem assassinadas simplesmente por experimentarem SER apenas o que são.

Porém, foi assim que no silêncio do coração, no calar teológico e intelectual e na aceitação do deus obsconditus, do Deus escondido, que na contradição do abandono da cruz, me reencontrei estranhamente outra vez com Deus, trazendo para junto de mim minha própria dúvida, minha própria desarmonia, meu desabafo.

Pude então ouvir no mais profundo de meu ser a calmaria do mar, o som da doçura do oceano de Deus. Ouvi o doce oceano de ternura de Deus acolher como gotas cada um dos meninos de Orlando. E me acalentei com a incompreensível, porém incontestável experiência que me testemunha que eles foram acolhidos na meiguice universal, nos braços onipresentes da delicada Trindade santa.

E é justamente assim que na eternidade do tempo, na infinitude do espaço e no bailar da harmonia do louvor das esferas e das galáxias, que sei que em comunhão com os rapazes de Orlando quero continuar a ouvir sons suaves da vida, que podem fazer-me como eles: liberto para apenas ser. E, sem abandonar Deus e nem a memória do abandono em Orlando, permaneço na caminhada contemplativa e ativista, que nos convida a paz universal e à plena utopia humana, para o fortalecimento da certeza da felicidade que sofre menos, e da vida que morre sem dor numa terra sem males.

Felipe Rocha é teólogo, professor espiritual e doutor em Antropologia da Religião pela Strasbourg servindo a igreja como pastor vivendo como eremita e missionário no meio popular.

reju Deus orlando