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Intuições para a negociação de um espaço teológico de libertação: Continuando o diálogo (parte 1)

Monólogos que perturbam: silêncios e ausências na Teologia da Libertação" foi uma primeira tentativa de colocar em palavras minha experiência no I Encontro de Espiritualidade e Juventudes Libertadoras em Fortaleza em maio de 2014. Conforme nomeado no título, frisei principalmente as ausências e, embora tenha tentado mostrar no final alguns pontos significativos desses quatro dias, não fiz de fato uma proposta sobre possíveis caminhos de renovação ou de novos rumos nessa luta por libertação, que me parece ser ainda o âmago de qualquer teologia latino-americana. E assim, falando em ausências, reconheço que essa foi uma no meu texto.

Hoje, depois que essas palavras foram lidas por muitos e muitas, e depois de ter recebido valiosos comentários ao respeito, é um bom momento para continuar a conversa. Este pequeno texto visa ser, pois, uma continuação do diálogo, agora dirigido especialmente ao companheiro Marcelo Barros por sua escuta atenta e sua disposição a uma interlocução com esta jovem teóloga.

Querido Marcelo, agradeço sua carta de resposta e o fato de ter acolhido meu texto como uma interpelação, cujo objetivo era prosseguir com a reflexão e construir um caminho juntos. É dessa maneira que acredito que deva ser a dinâmica constante de nossa tarefa teológica. Foi uma grande alegria ler suas palavras, principalmente ao perceber a sensibilidade com a qual você escreveu, no intuito de somar e fortalecer pensamentos para “encontrarmos juntos uma porta de saída e libertação”, como você afirma. Não está demais dizer que a sua foi a única resposta “formal” que recebi.

Vale a pena lembrar também que, como toda experiência, a minha nesse Encontro era situada e concreta, por isso, diferente de outras no mesmo espaço, inclusive também da sua. Claro, nossos lugares sociais e religiosos não são fixos nem essenciais, são contingentes, e mesmo assim condicionam nossas perspectivas.

É claro que a dinâmica desses espaços pode restringir a espontaneidade de qualquer fala, nem por isso se justifica a omissão que em alguns momentos tivemos que presenciar. Sei que você concorda comigo. E aproveito para lhe dizer que, de fato, a sua participação no Encontro foi sim muito significativa. Para além do que foi dito, os gestos durante todo o evento valem muito mais que algumas palavras enunciadas em um microfone. Por isso, a minha crítica não foi endereçada a nenhum de vocês de maneira pessoal ou exclusiva. Mas a alguns discursos e gestos (autoritários e hierárquicos) que infelizmente se perpetuam dentro da TL, e também almejando para esses encontros “outras dinâmicas mais baseadas no diálogo e na provocação recíproca e permanente”, como você mesmo elencou. Porém estou ciente da dificuldade – não impossibilidade – de levar isto a sério em um evento grande e com tantas pautas na mesa.

Minhas colocações estavam circunscritas inicialmente ao contexto do Encontro. De fato, talvez não seja justo afirmar que a teologia da libertação hoje esteja presa a categorizações homogêneas, como me refiro em meu primeiro texto. Há que se reconhecer os avanços da TL no que diz respeito à diversificação dos sujeitos, das vozes e dos contextos nos últimos anos. Dessa maneira, é evidente que a experiência da ASSET proporcionou um cenário importante de pluralização dos rostos e das buscas por libertação. Novos desafios foram postos com as teologias feministas, as teologias queer e as teologias pós-coloniais, mas infelizmente sua rica e imensa produção não alcança ainda os diversos espaços de formação e produção teológica do continente. Apesar disso, e mesmo reconhecendo as mudanças, assim como o aprimoramento da análise da realidade, com aportes significativos de outros campos do saber, o que continuo afirmando é que tais mudanças – mesmo aparentemente reconhecidas – não conseguem afetar radicalmente os discursos e os posicionamentos de muitos teólogos até hoje. Isso foi perceptível no espaço concreto desse Encontro.

A teologia da libertação ao longo da sua caminhada percebeu, graças à pressão de diferentes sujeitos, que a dominação acontece de maneiras múltiplas. Falou-se então em novos sujeitos. Porém, esses sujeitos não podiam ser somente nomeados, contados, percebidos – como já mencionei anteriormente. Depois da sua “emergência”, os sistemas e métodos da teologia não podiam ficar intactos. Eis aqui o problema da inadequação dos discursos de libertação. Não se trata da irrupção dos subalternos, ou da bondosa inclusão de alguns dos “seus rostos” nos discursos teológicos de libertação, mas, principalmente, e está aqui o desafio atual, trata-se de criar espaços radicalmente democráticos onde essas novas vozes encontrem um lugar aberto para falar e assim desestabilizar as estruturas e os sistemas que controlam a produção de conhecimento e de subjetividade no campo teológico.

Você tem razão quando afirma que em todo diálogo existem duas partes e que, na ausência real desse diálogo, a responsabilidade não é de uma parte só. Importante frisar que muitas vezes o diálogo não acontece de fato pela relação desigual de poderes e forças envolvidas. Mas, acredito que, como você menciona, no caso que nos ocupa seja importante discernirmos as responsabilidades. Para além do que ainda considero uma tendência a falar mais do que a ouvir por parte de alguns teólogos da libertação da sua geração, pode ter faltado um apelo concreto por parte dos e das jovens que participávamos no encontro. Não esperar, mas ser proativos na comunicação – sim, talvez, mas também estávamos de alguma maneira presos à programação, às regras e aos espaços estabelecidos para o Encontro.

Existe uma dificuldade que não é só nossa – de jovens, militantes religiosas e religiosos e diferentes atores sociais – para compreender criticamente o lugar que se ocupa na luta, isto é, compreender como as propostas particulares se entendem como parte de um contexto maior. Isso requer uma atitude negociante que renuncie a projetos de libertação que se apresentem como definitivos, uma atitude que submeta todas as propostas a uma reconfiguração constante. Carecemos ainda de boas articulações a partir de lutas concretas, que além de nos motivar consigam transcender a fragmentação e as polarizações que resultam benéficas ao funcionamento do sistema que visamos combater. Aqui o desafio é para todos nós. 

Pelo anterior, acredito que há possibilidade de um acordo entre as línguas que vocês e nós falamos. Principalmente se levarmos em consideração que o sofrimento do mundo nos dói radicalmente e que a fé nos move na busca por mudanças.  É possível pensar e caminhar para a compreensão mútua, o diálogo sincero e aberto e a construção de alianças. Só precisamos mais disposição para reconhecer nossos próprios privilégios, negociar os critérios, as pautas e os métodos para que realmente isso aconteça.

A contribuição de vocês, teólogos/as da libertação das primeiras gerações continua tendo um valor incalculável, ainda nos desafia e nos interpela. Por tal razão, tenho certeza que não se trata de substituir um discurso “velho” por um “novo”. Mas de interligar – o que implica conflito – as experiências assim como as intuições teológicas de diferentes gerações, reconhecendo que são todas contextuais, informadas por uma particularidade e que precisam sempre passar pelo crivo da crítica interna e externa.

Assim, nesse intuito, a teologia da libertação precisaria transcender o contextual. Não é “eficaz” nos posicionar de maneira exclusivamente contextual contra um sistema que nos esmaga precisamente por sua inerente capacidade de engolir os contextos, isto é, diante do capitalismo e seu caráter universal[1]. Então, de que serve a celebração dos contextos particulares se tal exercício não contribui na construção de alianças pedagogicamente efetivas?  Não se trata de opor “nossos” contextos à “suas” propostas universais. Se for assim, de novo, esbarramos com as mesmas impossibilidades.

Nesse sentido, a crise que eu apontei na teologia da libertação não implica em sua irrelevância e muito menos em sua morte. A crise é inerente ao espírito que movimenta a TL. No momento em que a luta pela vida é assumida como critério principal, essa vida na sua pluralidade e complexidade irá inevitavelmente perturbar esse discurso teológico. Ele não é fechado em si mesmo, ou não deveria ser. Acolho aqui a proposta de Fernando Candido[2] quando usa libertação sob rasura: libertação, sugerindo a necessária revisão critica e a suspeita constante de todo projeto ou leitura libertador/a.

Hoje eu pensaria que estamos numa fronteira de paradigmas na teologia da libertação, e vejo isto com bons olhos. Talvez o caminho seja não pretender passar rapidamente a um novo paradigma, nem negligenciarmos as contribuições do anterior. Mas, situar-nos no conflito, na convergência, na crítica constante e na adequação do foco através do qual enxergamos a realidade. Essa fronteira implica pensarmos “em meio a” e não “a partir de”: em meio a diálogos geracionais (e não a partir de uma geração específica); em meio a diálogos confessionais (e não somente a partir de uma ou duas religiões); em meio aos saberes e práticas plurais (e não a partir da teologia como disciplina “separada das outras”) etc.

Esse entre-lugar é o que nos permitirá enxergar a nós mesmos como particularidade e o que nos permitirá ouvir aos outros, dando lugar para que outros nos digam quem somos, isto é, que nos revelem o nosso “universal”, aquilo que nos vincula para além das nossas diferenças. É somente este exercício que conseguirá atender à exigência das teologias feministas que reconheceram a necessidade de ser mais do que meras teologias da libertação, e ser teologias críticas da libertação. As teologias pós-coloniais têm ainda acrescentado mais um desafio: uma teologia crítica da libertação, ou que opta pelas margens, não poderá ser só “cristã”. Portanto, é esse entre-lugar que permitirá ir além da fronteira confessional.

Pensemos então no Encontro. Quais teriam sido os pressupostos que o possibilitaram? Quais os pressupostos que lhe deram forma? Penso aqui estar me engajando com sua disposição a pensar em encontros futuros. Pois bem, analisemos criticamente o que talvez aconteceu: (1) Supôs-se que os jovens (os “outros”) precisavam ser desafiados; (2) Supôs-se que os mais velhos eram a voz profética que iria desafiá-los; (3) Supôs-se que um encontro de espiritualidade e libertação poderia acontecer “só” entre juventudes cristãs. Creio que estes pressupostos foram tácitos e muito provavelmente inconscientes.

Como criar espaços mais democráticos para encontros futuros? Sabemos que a velha guarda reconhece que nós jovens temos feito – e não só “consumido” – teologia; ou sabem que as outras religiões e confissões também possuem suas palavras proféticas (como demonstra a produção das teologias pluralistas da libertação) etc. Porém, vamos além. Se estivermos decididos a ficar na fronteira, nesse “entre-lugar” de que tenho falado (não só eu), pressupomos então: que as palavras e intuições divinas acontecem, como teria dito o saudoso Milton Schwantes, quando todas as pessoas têm ocasião de falar a sua própria palavra. Isso implicaria um desafio: estamos dispostos a renunciar à “palavra-profética”? Não será esta voz muitas vezes fonte de silenciamentos e marginalizações? Por que continuar pensando (isso às vezes também nas entrelinhas) que só os/as teólogos/as profissionais de fato fazem teologia?  

A pergunta não é mais se “os subalternos podem teologizar”, mas se a pessoa subalterna pode ser – e é – realmente ouvida na sua teologia. Por que ousaríamos controlar a bagunça de línguas de fogo que falam sempre em sua própria forma sobre a experiência dEla?

 Afinal, em uma teologia crítica (aqui a “libertação” ficará também em um agonístico “entretempo”) que opta pelas margens, e margens entendidas como o espaço de uma “complexa negociação de identidades (humana e divina)”[3], o máximo ao que podemos aspirar, como nos lembra Lieve Troch, é agir de uma forma tal que todas as pessoas possam falar a sua própria voz.

Eu sonho com esse espaço realmente democrático na teologia latino-americana. Esse espaço aberto que propicie o diálogo real, a troca, o toque. Que motive a condição de luta e não tenha medo do conflito e da bagunça. Acredito que podemos torná-lo possível, e também que ele já acontece em pequenas doses, só precisamos ouvir e ver com atenção e humildade. Já está entre nós...

Um abraço da companheira de caminhada e de fé, 
Maryuri Mora.


Confira os textos que motivaram o diálogo:
"Monólogos que perturbam: silêncios e ausências na Teologia da Libertação"
“Resposta ao texto Monólogos que perturbam: silêncios e ausências na Teologia da Libertação” – Marcelo Barros
“Intuições para a negociação de um espaço teológico de libertação: Continuando o diálogo (parte 1)”
* Teóloga colombiana. Doutoranda em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo. Participa da REJU (Rede Ecumênica da Juventude).
[1] ZIZEK, Slavoj. Violência: seis reflexões laterais. São Paulo: Boitempo, 2014.
[2] SILVA, Fernando Candido da. Uma aliança abominável e per/vertida?: anotações subalternas
sobre o arquivo deuteronômico. Tese de doutorado, UMESP: São Bernardo do Campo, 2011.

[3] Althaus-Reid. Marcella. O Êxodo divino de Deus: Involuntariamente marginalizado, fazendo uma opção pela margem, ou realmente marginal. Em Concilium 289-293. Deus: Experiência e mistério. Petrópolis: Editora Vozes, 2001.

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