Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Juventudes: águas que correm e se encontram

8-05-2014

Eduardo Brasileiro

O Encontro de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, que ocorreu entre os dias 1º à 4 de maio, trazem águas de juventudes de todo o brasil e alguns da América Latina que querem debater: teologia da libertação, juventudes e espiritualidade. Período de derramar águas, abrir correntes, escoar água parada, dedicar-se as nascentes e principalmente buscar o fruto dessas águas, grãos de justiça que se levantarão nessa nova geração. 

Nosso corpo trás 75% de água, vai ver é nesse elemento que se esconde a nossa essência, energia que perpassa o corpo inteiro fecundando e dando vitalidade para viver. A água em nós é o ato eucarístico por excelência, nos recolocando em unidade com a terra, com os rios, com os povos que constroem o seu caminho até o nosso corpo. Está nela o furor de uma espiritualidade libertadora. 

Mais de 40 anos da teologia da libertação e este encontro tem uma perspicácia de trocar saberes, desejos e intuições sobre os novos tempos. Cabe lembrar que gerações sempre terão relações conflituosas e criativas que refazem caminhos, apontam metodologias e desassossegam sistemas. Por isso o encontro esteve bem longe de ser morno, pelo contrário, nutriu-se de contradições e prospectivas. 

Frei Betto, Marcelo Barros, Leonardo Boff e muitos outr@s construíram suas exposições na importância da luta pelos pobres e excluídos, pelo acolhimento e meditação, enfatizando o irrenunciável sabor de amor na luta pela justiça. A teologia da libertação, muito além de um posicionamento estanque é o movimento revelador de Deus (ou Deuses na história), panteísta "Deus está em tudo e tudo está em Deus", no entanto nem tudo é Deus, assim esse diálogo fala a partir de experiências comunitárias da vivência do sagrado. 

A PJ (Pastoral da Juventude), REJU (Rede Ecumênica da Juventude), MIRE (Mística e Revolução) e outr@s coletivos de juventudes presentes, em murmúrios, palavras de ordem, intervenções, deram um toque essencial ao encontro: A fala da contradição. Mais do que passar o bastão da teologia da libertação, as juventudes queriam debater suas vidas, desejos, utopias e repressões. A narrativa d@s jovens era a de falar do chão de suas histórias, parecia-nos aproximar do caminho das águas, aquelas misturas que trazem saborosos saberes, ingênuos ou intensos, como águas que caem dos céus, apaixonantes no narrar seus caminhos até ali, buscavam evidenciar onde devemos sempre estar fecundando grãos que vão brotar nossa mística; as bases. As bases sempre serão estas árvores que estão para nascer, a união de nossa essência (águas que cantam e encantam) encontramos à luta (grãos de minorias) para formar resistência pela vida (árvores imensas). 

Nossas juventudes demonstraram nas oficinas e intervenções sua raiz na teologia latino-americana e suas folhas foram dando nova roupagem à luta. Há uma questão que o evento não esperava; Essa nova geração de juventudes tem uma particularidade em seu viver, que é a paixão pelos seus grupos de pertencimento possibilitando uma ousada vivência espiritual na realidade local, sendo assim, em suas pequenas pertenças constantemente reeditam a libertação por cantos, poesias, gritos e cuidados, configurando com T maiúsculo, Teologias: 

- Se produzimos a voz dos que nunca às tem, valorizando os encontros, as chegadas e as ideias, corremos contra a mercantilização das relações pela dominação da indústria cultural. 

- Se cremos numa “Juventude Viva” e em sua capacidade de criar políticas públicas que fomentem a cultura de paz, lutamos contra o extermínio da juventude negra, pobre e periférica, criando espaços que discutam as relações de vida que as juventudes constroem para vencer essa lógica de genocídio. O assassinato de jovens em todo o Brasil possuidores de nomes, sonhos, ideologia e pertencimento, fazem nos perguntar nas palavras de Douglas Rodrigues, morto em São Paulo que questionou ao policial “Por que o senhor atirou em mim?”, um grito pelo fim de nosso genocídio silencioso. Essas palavras gritam em mim, em nós e neles para que cesse. 

- Se escrevemos em nossos peitos a necessidade de vencer o machismo, cremos que a espiritualidade libertadora reside aí, nas frestas do cotidiano que reivindicam justiça e revelam a anima (espírito feminino) que abarca a uma descoberta da identidade nossa, a partir da terra, da revolução feminista e da superação do machismo. 

- Se propomos que só existe verdade se ela caminhar ao lado do caminho d@s noss@s mártires e da vida que se luta, defendemos a juventude que vai às ruas e propõe uma renovação democrática e a revolução de direitos humanos para um alcance hegemônico. 

- Se as denuncias sobre a perpetuação de uma lógica societária de homofobia, lesbofobias, transfobia que negam o direito de expressar a sexualidade a partir de sua dignidade de vida,  bem como o fundamentalismo religioso que no Brasil e no mundo é preconceituoso, racista e excludente, são negações da libertação humana e da manifestação de suas danças, festas e gandaias, nós, juventudes viemos apresentar outros mundos possíveis. 

Em nossa época as juventudes são “o fenômeno mais massacrado pelo sistema capitalista” (L.Boff), e nas cadeias de toda violência sofrida nas ruas, nas instituições e no mercado, vivem sobre prisões pós-modernas que negam o seu direito de ser como se deseja. Frei Betto, conclamava “Na prisão Deus sempre chega antes de nós”, para isso é preciso mostrar o que as juventudes têm a propor; Um espaço onde possa se sonhar, manifestar expressões, sacudir antigos termos e propor novas teologias, que fale à tod@s que ainda não se veem representad@s e encantad@s pelas instituições que clamam a manifestação de Jesus, e sua fidelidade a construção do mundo do bem viver (Suma Qamaña em aymara e Sumak Kawsay em quechua). 

As águas em nós precisam ser descobertas de métodos antigos, e possibilitada com espaços como este I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, onde se torna possível adubar os pequenos grãos que incendeiam esse país, com vozes de protesto e indignação, fazendo resplandecer um horizonte de uma casa/tenda/Oca comum, onde reina a justiça a pluralidade, e de fato, suspira uma espiritualidade libertadora. 

Amém, Axé, Aeluia, Awiri!


Eduardo Brasileiro

Integra a Pastoral da Juventude Paróquia Nossa Senhora do Carmo – Itaquera e a Rede Ecumênica da Juventude em São Paulo (REJU-SP).

Juventudes: águas que correm e se encontram