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​Lições de Auschwitz

A recente visita do Papa Francisco a Auschwitz-Birkenau, durante sua viagem apostólica à Cracóvia, foi bastante provocativa. Ele não é o primeiro papa a visitar aquele lugar, mas a visita torna-se singular com o seu profundo gesto de silêncio e contemplação. Todo o mundo, não apenas os cristãos católicos, assiste a um papa adentrar o sacrário da dor e do sofrimento humano com as mãos vazias, o olhar profundo e o coração repleto. Um papa sem palavras.

Conviver com o paradoxo vida-morte tem se tornado tão banal, que a humanidade, grande parte dela, olha o outro e seus dramas com o peso da insensibilidade e às vezes precisa levar uns bofetões como esse para acordar, refletir, dar mais atenção. As páginas da História não nos deixam esquecer os horrores sofridos nos campos de concentração e, pela via da dor, grita que o sofrimento não acabou com o seu fechamento.  

No mesmo dia da visita de Francisco, fui à uma livraria e, diante daquela variedade, um livro saltou aos meus olhos, praticamente chamou-me pelo nome. Canções de ninar de Auschwitz. Coincidência ou não, vi que aquele despertar tinha algo a me dizer. Forte e profundo, duríssimo. Detalhes lancinantes no corpo e na alma. A obra conta a história de Helen Hannemann, uma alemã que escolheu comungar a dor do marido e dos cinco filhos com ascendência cigana nos 16 meses que passou no campo de concentração. Uma leitura que vale a pena. Aproveitando o final de semana e a temática, assisti a “O corajoso coração de Irena Sendler” (2009). Uma outra história fascinante.

A matança de homossexuais, judeus, ciganos e tantos outros que não eram vistos como pessoas pelos nazistas poderia ter ensinado à humanidade a cuidar melhor da vida, a cultivar a ética do cuidado. Os olhos e os ouvidos permaneceram cerrados aos tristes ensinamentos do horror e a humanidade preferiu continuar matando homossexuais, transexuais, negros, migrantes, mulheres e tantos mais, matando os outros por causa de religião [ou falta dela]. A humanidade preferiu desprezar, oprimir, reprimir, agora não mais em campos de concentração, aqui ou acolá. O mundo tem se tornado um grande campo de concentração, um lugar de extermínio, pela ação de uns e pela omissão de outros.

No livro citado tem um trecho que me chamou muito a atenção. “Às vezes, temos que perder tudo para conseguirmos o mais importante. Quando a vida nos despoja do que parece imprescindível, ficamos nus frente à realidade. O essencial, sempre invisível aos olhos, assume sua real importância.” (ESCOBAR, Mário. Canções de ninar de Auschwitz, p. 150)  Concordo que, muitas vezes, a vida nos despoja de muitas coisas. Carregamos em nossa existência muitas coisas desnecessárias e que precisam ser eliminadas. Contudo, discordo em pensar que o essencial é sempre invisível. Essa invisibilidade do outro e suas dores continua sendo responsável pela alimentação do fascismo, das tragédias e de tantos crimes. Passados 70 anos, não dá para continuar acreditando que Auschwitz deixou de existir. Nós estamos aqui para resistir, para lutar, para tornar o mundo mais habitável, para ver a casa-comum acontecer, para gritar por justiça, paz e integridade da criação.

* Marcus Tullius, estudante de Filosofia e Comunicação Social, membro da REJU ES. 

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