Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Mais cuidadores, menos amoladores de facas

24-11-2016

Saí extremamente provocado de uma aula após debate sobre mídia, produção de subjetividade e violência. A leitura e reflexão dos textos de apoio me fizeram pensar na responsabilidade da mídia pela produção de violência nos cotidianos e pela propagação do rentável discurso do medo. São informações recebidas de todos os lados e, infelizmente, tendemos a ficar conformados com uma situação de normalidade, insensíveis às realidades, acomodados. 

Atrelado a isso, está a explosão do consumo, característica do nosso tempo, que faz nascer uma enxurrada de novos produtos, com bastante similaridade entre si, aumentando o desejo das pessoas em consumir tudo o que é produzido. Com o aumento dos desejos, aumentam-se também as frustrações, culminando em uma desestruturação na vida pessoal, familiar e comunitária. Esse movimento envolve todas as instâncias de nossas relações e se acentua quando os desejos são maiores do que as necessidades. A lógica do mercado invadiu a dinâmica dos sentimentos, provocando uma mercadização das relações. Quando as afinidades acabam, a relação não é mais necessária, logo é colocada de lado.

Dentre os textos lidos estava “A Atriz, o Padre e a Psicanalista: os Amoladores de Facas”, de Luiz Antônio dos Santos Baptista. O texto é de 1999, mas parece que foi escrito hoje. Segundo o autor, os amoladores de facas são seres ávidos por criar problemas e solucioná-los, na defesa de um humanismo que preencha o vazio de um homem fraco e sem força. Os amoladores de facas são seres com prestígio, seres empoderados e empoderadores. Isso não é algo novo na história e foi vivido pelos negros, pelas mulheres, pelos trabalhadores, dentre outros. Na conclusão, Baptista analisa que a psicanalista, o padre e a atriz têm em comum o autoritarismo dos “pontos de vista”, fundado no “esvaziamento da implicação coletiva e da construção histórica e sociopolítica do olhar e do outro”.

Penso que hoje os amoladores de faca não são apenas a atriz, o padre e a psicanalista. De amoladores de faca, todos temos um pouco. O pensador italiano Umberto Eco, após uma cerimônia na universidade de Turim, em 2015, expressou bem essa nova geração de amoladores de facas: “as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade”. Os perfis, principalmente do Facebook, tornaram-se tribunais formados pelos mais doutos especialistas em quaisquer assuntos, nos quais as pessoas se sentem no direito de ofender umas às outras, de vomitarem seu ódio e de expressarem seu fascismo. Há um discurso de ódio impregnado neste mal uso da liberdade que gera violência, ora silenciosa, ora gritante, com o racismo, com a lgbtfobia, com a transfobia, com o machismo, a intolerância política e religiosa e tantas mais. Aí foi inevitável lembrar a frase da ensaísta Viviane Forrester, “os crimes contra a humanidade são sempre crimes da humanidade”. Estamos nos matando. 

Considero que é extremamente importante a redescoberta de uma ética do cuidado para a produção de subjetividades menos violentas. Cuidado com a pessoa, cuidado com o mundo, cuidado com a criação. Toda vez que há descuido com algum destes aspectos há produção de violência. O Papa Francisco afirmou que “se o mal é contagioso, o bem também é. Deixemo-nos contagiar pelo bem.” Assim, se a disseminação do mal e da violência gera atitudes ruins nas pessoas, podemos tentar reverter o caminho com a publicidade do bem. É preciso dar voz à utopia e acreditar que tudo é possível. Por um mundo com mais cuidadores e menos amoladores de faca. Por um mundo de paz.

Marcus Tullius
REJU Espírito Santo

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