Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Não há Paz sem Justiça: Por uma paz duradoura no Oriente Médio

24-07-2014

Nas últimas semanas o mundo assiste uma das mais violentas ofensivas israelenses contra o território palestino de Gaza. Os números oficiais das Nações Unidas[1] falam em mais de 500 mortos, sendo 479 palestinos (pelo menos 364 civis, sendo 121 crianças e 59 mulheres) e 27 israelenses (2 civis e 25 soldados). Aproximadamente 100.000 palestinos encontram-se desalojados de suas casas e abrigados em escolas da ONU. A ofensiva terrestre israelense continua e, ao mesmo tempo, o braço armado do Hamas e grupos armados da jihad islâmica continuam com o lançamento de rojões e mísseis ao território israelense.

Neste momento em que os olhos do mundo estão voltados para a região da Terra Santa é importante que alguns pontos sejam levados em consideração. Esta ofensiva não é um conflito pontual e isolado. A área de Palestina e Israel se encontra em conflito desde 1948 com o a criação do Estado de Israel pelas Nações Unidas. A chegada da população judaica, vinda em fuga da perseguição antissemita da Europa, gerou um novo contexto político que não foi resolvido desde então. Os planos de partição da terra não foram implementados e o Estado da Palestina não foi criado até hoje. Desde 1967 a Palestina, Cisjordânia e Gaza estão ocupadas ilegalmente pelo Estado de Israel. Jerusalém Oriental foi anexada ilegalmente ao território de israelense; o muro de segregação (também chamado de muro do apartheid) invade as fronteiras, separando vilas palestinas de suas terras; as colônias ilegais de israelenses crescem dentro dos territórios ocupados, e mais uma série de atos de violência física, psicológica e simbólica é aplicada às(aos) palestinas(os).

Ao falarmos de Gaza, falamos de um território que possui 1,6 milhão de pessoas morando em uma pequena faixa de terra, o que torna aquela área uma das maiores em termos de densidade demográfica no Oriente Médio. Nesta realidade, 38% da população vive abaixo da linha da pobreza. Além disso, o povo palestino está sob um pesado bloqueio econômico que impossibilita a importação e exportação de seus produtos sem o aval do governo de Israel. O povo que vive nos territórios têm sua locomoção controlada pelo exército israelense, num burocrático e longo sistema de checkpoints[2], que dificulta as relações de trabalho, o comércio e o desenvolvimento das(os) palestinas(os).

Um argumento que é constantemente trazido na discussão deste conflito é a questão religiosa. Diante de tal realidade, nós da Rede Ecumênica da Juventude (REJU) - uma articulação promovida pelo Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT Brasil), compreendemos o perigo da manipulação do discurso religioso visando interesses político-econômicos que sustentam sistemas de opressão e exclusão. Dentro da nossa espiritualidade e vivência, aprendemos que a aceitação daquele que professa uma fé diferente é essencial para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana.

A REJU apoia iniciativas que visibilizam e denunciam as realidades vivenciadas pelo povo palestino, como o Programa Ecumênico de Acompanhamento na Palestina e Israel (PEAPI), promovido, há uma década, pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Este programa consiste no envio de testemunhas oculares internacionais às áreas de conflito com o intuito de, através de sua presença, inibir ações violentas e agilizar o processo de denúncia de casos de violação de direitos humanos dos dois lados envolvidos. O PEAPI é um dos frutos mais marcantes da Década de Superação da Violência, promovida pelo CMI, entre 2001 e 2011, e surgiu como uma resposta concreta do movimento ecumênico global ao documento elaborado por cristãs e cristãos palestinos - chamado Kairós Palestina - que conclama a comunidade internacional a um posicionamento em favor de uma solução pacífica e justa à situação de conflito.

Para a REJU, não será possível discutir a paz verdadeira nesta região sem o fim da ocupação. A Paz da “não guerra” poderá acontecer, mas ela não será Shalom, Salaam, Plenitude de Paz, enquanto não vier acompanhada da justiça. Seguindo o chamado do Documento Kairós Palestina, entendemos que é chegado o tempo da resolução para uma Paz duradoura e final naquela região. Por isso, somos pelo fim das ocupações na Palestina. Entretanto, esta realidade não será alcançada sem pressão da comunidade internacional, tanto civil quanto governamental. De tal forma, tendo em vista o documento “Medidas econômicas e Responsabilidade Cristã na Palestina e Israel”[3] e a recente carta de diversas lideranças religiosas entregue pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC)[4] à Secretaria - Geral da Presidência da República:

1)   Posicionamo-nos pelo fim imediato da ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza, pela negociação de um cessar-fogo entre todas as partes envolvidas e pelo fim da Ocupação das Terras Palestinas na Cisjordânia e Gaza, com o fim do cerco militar;

2)  Apoiamos todas as iniciativas de judeus, cristãos, muçulmanos e pessoas de outras religiões que visem à constituição de uma solução justa e pacífica na região da Palestina e Israel;

3)  Manifestamos apoio às estratégias de investimento responsável das igrejas e outros grupos que tem retirado investimento de empresas que lucram com a ocupação israelense das terras palestinas, como a recente decisão da PCUSA[5]. Assim como pedimos pelo fim dos convênios militares do Brasil com o exército Israelense e com a empresa ELBIT; incentivando uma discussão profunda sobre a estratégia do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), já utilizada para por fim ao Apartheid na África do Sul;

4) Reforçamos nossa posição contrária ao uso manipulado da Religião como forma de legitimar sistemas político-econômicos de opressão, privilégios e exclusão;

Rememorando a frase de Nelson Mandela, entendemos que a chegada a uma solução final do conflito entre Palestina e Israel é um pré-requisito para o estabelecimento de uma paz duradoura e uma situação mais humana e justa no Oriente Médio e em todo o mundo.

“Nós sabemos muito bem que a nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos”.

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)


[1] Occupied Palestinian Territory: Gaza Emergency Situation Report (as of 21 July 2014, 1500 hrs), http://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_sitrep_2...

[2] Checkpoints são postos de controle de entrada e saída de pessoas palestinas no território ocupado por Israel, que compreende ir e vir a partir dos seus critérios de “segurança”.

[3] http://www.oikoumene.org/en/resources/documents/ce...

[4] http://www.conic.org.br/cms/noticias/804-kairos-pa...

[5] http://oga.pcusa.org/section/ga/ga221/ga221-israel...

Não há Paz sem Justiça: Por uma paz duradoura no Oriente Médio