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Nascer de Novo e Gênero – Anotações sobre o diálogo do mestre Jesus com o fariseu Nicodemos

Ir. Felipe Rocha

Como reagiria a proposta de nascer de novo? Talvez argumentasse que toda a beleza do próprio existir seria uma justificativa plausível para que respondesse positivamente a indagação ou muito provavelmente insista que muito embora seja a "vida bela" existam muitos fatores que não qualificariam ser uma sábia decisão acatar o convite de vir-a-nascer outra vez no planeta terra.

De maneira similar, a sabedoria judaico-helenística do segundo século AC, chegou a afirmar que "o dia da morte é melhor do que o dia em que se nasce" meditando sobre as calamidades, carências, contradições e atribulações que sobrevêm a todos os viventes. Mas tarde, São Paulo refletiu que nosso corpo comum (Eu-Terra) suspira e geme em virtude de todas as opressões a que é submetido e por isso deseja ser simplesmente "absolvido pela Vida". – Eclesiastes 7:1 e II Coríntios 5:1-5

O mestre Jesus, por exemplo, reconhecia profundamente que o tecido da existência humana na terra estava manchado, certa vez chegou até a afirmar para aqueles que valorizavam contundentemente uma espécie de pureza e limpeza cerimonial e religiosa externa, que não eram as práticas externas (numa filosofia/teologia anticorpo) que tornavam o individuo impuro, mas sim aquilo que estava desde seu interior. Metaforicamente afirmou que "comer sem lavar as mãos não torna ninguém impuro", mas era antes todo o palavreado religioso humano regado de esterilidade, negatividade, ignorância e opressão, pintado de regras morais e sociais excludentes que tornavam a humanidade de um individuo simplesmente impura. E, mais profundamente falando deixar-se guiar por tais preceitos é simplesmente ser um cego existencial guiado por um cego radical – Mateus 15:1-20

Assim, a meu compreender, o Nazareno atingia um dos germes da opressão que desqualifica a Vida de todos os seres mergulhados no ventre da mãe terra: a ignorância mental e espiritual que não apenas limitou os corpos, mas também os dominou e sobre eles legislou, julgando-os, explorando-os e os subalternando, pois já como dizia Gebara "tudo é corpo e não há nada fora do corpo".

E foi assim, que o mestre trabalhava por resgatar a perspectiva de interdependência e liberdade na dimensão própria e particular dos seres humanos com os quais convivia convidando-os a nascerem de novo para daí alargarem o sentido de sua própria existência, vencendo os limites do corpo individual e sentindo-se imanescentes na terra e no universo na sua relação com todos os outros corpos.

Ao poderoso Nicodemos disse Jesus que ele e todos os outros precisavam "nascer de novo" para que se tornassem capazes de "ver" e assim "entrar" no Universo de Deus. Rapidamente, Nicodemos evoca primeiro a sua própria imagem: a de um homem velho, pai, líder, fariseu, instrutor do Israel, governante dos judeus – membro do Sinédrio - (Nicodemos significa Conquistador do Povo), desvelando uma figura dominante e espontânea numa sociedade patriarcal. Em seguida manifesta-lhe a imagem de uma mulher, mas não dessa ou daquela mulher, a mulher maternal, a da sua própria mãe, revelando para o mestre todo seu desamparo, suas velhas emoções e necessidades infantis.

Jesus então, dispensando ambos os conceitos e rejeitando uma concepção dualista e dicotômica, bem como deixando para trás as imagens da cultura dominante patriarcal sobre homem/mulher, diz que o novo Ser emerge da Água e do Espírito.

Acredito que as figuras de linguagem empregadas nessa narração das primeiras cristãs e cristãos pelo mestre são um convite primoroso para uma experiência poderosa com o Divino e com o Mistério, cujo conteúdo nos atrevemos a chamar de Deus, para que voltemos a Base da Existência e vençamos as escravidões literais e espirituais praticadas nos corpos (da Terra como o Todo <minerais, vegetais, animais e humanos>) e hierarquizadas nos corpos masculinos e femininos.

Isso porque, nascer da água, que de longe é a matéria e líquido básico para a vida de todos os seres como as plantas, animais e humanos, poderá perfeitamente nos recordar da existência de um elemento comum a todos os viventes o que nos coloca automaticamente em ligação e como demonstra a nossa própria irredutível biologia implica em uma inter-retro-conexão dentro de um sistema dinâmico e aberto que existe e se doa amorosa e eticamente para a perpetuação da vida em todo planeta. Além disso, é através do rompimento de uma bolsa de água que nasce a vida humana e a própria história evolutiva vem constatado que a água é o nosso verdadeiro berço.

Significativamente também, cristãs e cristãos são apresentados na infância, na adolescência, na fase adulta ou mesmo na velhice ás águas (batismo), e através delas estabelecem um compromisso humano-espiritual com um Deus que não é da vida, mas com Deus que é vida, não porque possuem corpos que por serem pecadores e depravados necessitam ser direcionados para uma missão espiritual extraterrestre (celestial), mas porque podem reinventar a vida com o que possuem para construção de relações de ternura, esperança, afeto e amor.

Belamente, nascer do Espírito, abrange vir-a-ser para a liberdade, 'soprando onde quer' de forma impetuosa, plenamente determinada, sem a interferência do outro que apesar de lhe ouvir não pode limitar-lhe, pois "não sabes de onde vem, nem para onde vai". É poder como diria o Livro da Criação, o Gêneses, bailar ou pairar sobre as águas (sobre o principio da vida do Todo terrestre) em uma dança do tipo cósmica estabelecendo uma aliança libertadora entre o ser humano, a natureza e a Divindade para transcender e realizar o verdadeiro Encontro, pois como diria Teresa D'Ávila "importa muito começar com esta liberdade e determinação".

Assim, parece-me que a transformação humano-espiritual do nascer de novo da proposta de Jesus de Nazaré e da Comunidade dos Nazarenos estava longe de uma concepção antropocêntrica ou androcêntrica da vida, e muito menos patriarcal ou mesmo talvez de um "apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade" (Laudo Si, 155) a partir de um referencial fundamentalmente masculino.

Para tanto, muito embora a meu ver não fosse do pensamento fundante do mestre e da prática essencialmente cristã primitiva uma dada importância a como se nasce ou mesmo ao gênero, afirmo que nesse ínterim nos aproximamos de uma espécie de ortopraxia de gênero, que de acordo com Gebara é a "busca de igualdade na diferença, através de caminhos diversificados (...) uma dimensão ética concreta nas relações humanas, a partir da qual acreditamos que de fato a "outra" e o "outro" são nossos semelhantes (...) possibilidade de vida para "todos e todas", mas vida com qualidade, que se torna o horizonte utópico inspirador de nossas ações".

Para concluir gostaria de afirmar que água e espírito são desde o principio sem principio nessa criação-evolução as aberturas essenciais para que vivamos como o Todo manifesto em profunda confraternização com tudo que vive no processo de vidamorte (junto e não-separado) - Gêneses 1:2

Como filhas e filhos da água e do espírito que renasçamos para nos sentir mergulhados experimentando o Universo (Reino) de Deus, pois como diria São Paulo aos sábios de Atenas "nele vivemos, nos movemos e existimos" – Atos 17:28.

Ir. Felipe Rocha é filósofo e teólogo, mestre em Ciências da Religião pela Escola Pratica de Altos Estudos e doutorando em Antropologia da Religião. Artista e terapeuta é praticante meditativo e religioso hesicasta de orientação contemplativa, sempre harmonizando sua vocação ao monasticismo ás lutas sociais e políticas. Há anos trabalha com crianças e jovens como educador e missionário inserido no meio popular com projetos de direção artística e desenvolvimento humano.

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