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O que o Espírito nos diz? Quebrantamento da Igreja e a conjuntura social

25-05-2016

A vida espiritual contempla-nos não apenas com momentos de solidão, êxtase e experiências sobrenaturais. Talvez as duas últimas experiências nem ao menos sejam tão necessárias para o seu desenvolvimento, diga-se de passagem. Essa vida, vivida no espaço divino, nos entrega momentos preciosos de reflexão profunda, os quais nos exigem mesmo que analogia trazer para a perenidade do cotidiano nossas intuições sobre o mundo.

Em um espaço de desavenças e desavergonhadas atitudes em que nos movemos na atualidade, a reflexão espiritual transborda de forma inequívoca para fazer-nos claramente expor, em caráter público, as manifestações de nosso interior - o chamado espírito.

E, então, quando saímos da solidão de nosso deserto interior e esbarramos na vivência comunitária em uma sociedade brasileira cada vez mais partida e fragmentada, descobrimos que tal situação revela igualmente as tentações. A estas, a comunidade de fé cristã se submeteu em seu contato regular com o capital e os vícios e alianças que estabeleceu, fazendo-me recordar da simbologia metafórica apocalíptica daquela que se vende ao luxo e à nobreza – Apocalipse 17:2

A visão espiritual profunda nos desvela uma Igreja mergulhada em seus próprios excessos e alianças antiéticas, embevecida do vinho de sua própria auto-absorção que de tão devassa tem tornado-se ávida em estabelecer meios esdrúxulos e indiretos de dominação dos corpos e da mente.

Vejo a situação atual política brasileira intimamente ligada aos ares do evangelicalismo como resultado triste de uma época anterior em que os homens (sim, os HOMENS) crentes se entregavam à verbosidade sem medidas enquanto deveriam, na verdade, ouvir o clamor de um povo que já sofria pela depravação da espiritualidade cristã por entre uma política alienante e uma economia marginalizadora que fazia e ainda faz constantes vítimas. A escuta da Palavra Divina deu espaço a uma infinidade de discursos e gerou uma rede de comunidades cristãs pouco preparadas para ouvir o interior e, portanto, incapazes de criar um ambiente de cura em que o Espírito pudesse ser livremente soprado, sanando as dores mentais, sociais, políticas e econômicas no seio de cada bairro ou região em que estava inserida.

Em nossa cegueira também não vimos o fogo do espírito abrasar quando nossos irmãos e irmãs clamavam por um despertar da Igreja, para que aqueles que nos foram dados como “pastores e mestres” compreendessem aquilo que fora dito por Dorothy Day sobre uma “revolução do coração, uma revolução que tem que começar primeiro em cada um de nós” e, a partir daí, em uma atitude prática e pragmática transformar as instituições através de uma força santa, a saber, o amor e a compaixão em ação.

Sinto que a Ruah Divina em seu sopro que vivifica nos chama a revivermos uma comunidade de fé marginal, em que felicidade e sofrimento, cruz e ressurreição sejam seus caminhos. Com os olhos do espírito sentimos a necessidade de nos arrependermos desse modelo de igreja brasileira cada vez mais acreditável, que triunfa e que possui poder. É necessário que cada um dos crentes sinta o fogo abrasador que nos queima para vivermos um amor que perturbe a atual ordem social e política e que recrie sonhos de uma comunidade que canta um novo canto.

Intuo que os atuais acontecimentos também nos informem a ânsia do Espírito de fazer-nos atingir a compreensão de que é a hora de fundirmos profundo crescimento espiritual com ação sábia e criativa no mundo, para além das trincheiras tradicionais que nos são apresentadas, afinal, tal como disse Shane Claiborne, um jovem protestante ativista líder do novo monasticismo na América do Norte, “quando realmente descobrimos como amar o próximo como a nós mesmos, o capitalismo não será possível e o marxismo não será necessário”.

A Igreja Brasileira precisa ser quebrantada e converter-se desse seu patriotismo míope e limitante, que a impede de amar sem medidas para além de suas fronteiras eclesiais, para buscar soluções reais e sólidas para a atual crise social longe desse seu heroísmo de cunho retrogrado que age tal como rolo compressor suicida da historia dessa nação.

É essa a oportunidade de fazermos suscitar ‘jovens com visões, filhos e filhas que profetizem, idosos que sonhem, prodígios e milagres’ que vençam a apatia e o isolamento doentio de nossas comunidades eclesiais, instituições e corporações (Atos 2:17). É preciso pela palavra do Espírito abraçar esse futuro incerto que se nos apresenta recobrando as energias para, nessa hora de necessidade extrema, transformarmos a nós mesmos e descobrirmos uma ação clara e radical que cure as divisões e impeça os poderosos de agir contra os impotentes. 

Quero a mística de uma igreja quebrantada que em um ‘ato de libertação vença a tolice,’ como disse Dietrich Bonhoeffer, e lembrando que “um ato de instrução ou argumentação lógica nada pode fazer para convencer o tolo de sua tolice. Antes de tudo, o tolo precisa de uma libertação interior autêntica”. 

Quero que essa minha igreja que, embora se pense rica e triunfante, entenda que nessa conjuntura que contribuiu para armar, reconheça que está ‘desgraçada, miserável, pobre, cega e nua’ e que, para cear outra vez com Cristo que bate a sua porta, precisa antes ter ouvidos para ouvir o que o ‘Espírito diz a igreja’ – Apocalipse 3:17-22

Desejo uma igreja com menos figuras tal como a de Simão Mago; celebridades que em troca de dinheiro compram e vendem todo tipo de favores; e com mais pessoas, como Simão Cirineu, que coloquem a cruz do Cristo nas costas nessa caminhada de via dolorosa que estamos trilhando. Que, falando o Espírito por entre aqueles que sofrem na caminhada da cruz numa sociedade desigual, instrua aqueles que vendem indulgências aos poderosos e sobre eles impõem suas mãos benditas.

Por Felipe Rocha

teólogo, professor espiritual e doutor em Antropologia da Religião pela Escola Doutoral de Strasboug.

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