Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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​Olimpíadas, o outro lado

Marcelo Barros¹

A partir da 6a feira, 05 de agosto, começarão no Rio de Janeiro os XXXI Jogos Olímpicos. Com o tema geral "Viva sua paixão", 10.500 atletas, vindos de 206 países vão concorrer a 42 modalidades olímpicas, com a inclusão de rugbi de sete e do golfe. A audiência estimada é de 4, 5 bilhões de pessoas, mais da metade da população do planeta Terra. É a primeira vez que o Brasil, mais precisamente a cidade do Rio de Janeiro, sedia um evento como esse. Por tudo isso, o Brasil está em festa e o nosso povo mais uma vez dará ao mundo o testemunho de ser um povo hospitaleiro e carinhoso com todos os irmãos e irmãs que nos visitam.

Já estamos recebendo delegações de diversos países e uma multidão de expectadores que vêm acompanhar os jogos e torcer pelos diversos países. Serão 19 dias de competições nos quais ocorrerão 306 tipos de jogos e provas que valem medalhas em todas as modalidades comuns às olimpíadas.

Em toda a história da humanidade, o esporte sempre foi um espaço de relação entre diferentes povos e culturas. E a própria bandeira olímpica, formada por cinco anéis entrelaçados, representa os cinco continentes e suas cores e mostra como a unidade pode ser vivida na diversidade.

A história dos jogos olímpicos se mescla com muitas lendas. Conforme reza a tradição, já no século VIII antes de nossa era, os gregos organizavam jogos com  a participação de atletas das muitas cidades independentes do país. Havia vários tipos e modalidades de jogos. Na cidade de Olímpia, de quatro em quatro anos, se realizavam os mais famosos, dedicados a Zeus, o deus supremo dos gregos. Esses costumes duraram ao menos até o domínio romano, quando imperadores cristãos consideraram esses jogos dedicados a um deus pagão como expressões de idolatria e os proibiram. Eles só foram retomados no final do século XIX. Mesmo tendo sido interrompidos em tempos de guerra, eles continuaram até agora e cumprem uma missão de integração e paz. Como nada fica alheio à conjuntura política, os próprios jogos já sofreram interferências políticas e até atentados terroristas. De todo modo, atletas e expectadores apostam na bandeira da paz e continuam a encantar o mundo com esse espetáculo de profissionalismo esportivo e cultura de paz.

Como a imensa maioria dos /as atletas que concorrem às provas é de jovens, durante esses dias, em um mundo social e politicamente dominados por uma elite de pessoas mais velhas, nós veremos um grande protagonismo da juventude. Nesse sentido, as Olimpíadas chegam a ser como um sinal profético de um mundo no qual a juventude tenha um protagonismo maior e decisivo.

É claro que, para chegar a competir em uma prova de Olimpíadas, todos os atletas que vêm ao Rio de Janeiro querem ganhar e os desafios são muito altos. No entanto, os desafios maiores dessas Olimpíadas não estão exatamente dentro dos campos e arenas dos esportes. Para se apresentar nas Olimpíadas, os jovens fizeram esforços imensos, tanto econômicos, como humanos. Do mesmo modo, por trás desse belo espetáculo de paz e de confraternização que o mundo inteiro assistirá, é bom que saibamos: houve muitos sofrimentos e uma imensa quantidade de problemas não resolvidos.

Mesmo se as Olimpíadas têm como vocação mostrar um mundo de fraternidade e de paz, elas ainda são organizadas dentro de um modelo social e político que expressa o mundo atual, organizado de forma injusta e excludente. Em um país no qual o atual governo provisório anunciou o corte de quase 100 bilhões de dólares de reais em gastos e tocando fortemente nos programas sociais, na educação e na saúde, como compreender o gasto de bilhões de dólares com um evento que dura duas semanas e que se sustenta sob uma forte exclusão social. Basta lembrar que com ingressos para os jogos que chegam a custar R$1.200 reais, quantos pobres poderão participar desses jogos, mesmo como simples espectadores? O que dizer  às milhares de famílias pobres, expulsas do seu lar e do único terreno que possuíam, para que se construísse a Vila Olímpica que funcionará por menos de um mês?

A uma sociedade internacional que fala em confraternização e unidade, onde estarão os pobres nessas Olimpíadas? Vendendo algum salgadinho e limpando as cadeiras dos estádios, se os organizadores permitirem. Por isso, os maiores e mais profundos desafios dessas Olimpíadas não estão nas modalidades esportivas às quais os atletas de tantos países concorrerão. O maior desafio é a corrida contra o tempo e que essas Olimpíadas deixem uma mensagem de que a humanidade precisa mudar o seu caminho social e político.

Quando, em 2013, durante o Encontro Mundial da Juventude, o papa Francisco visitou a comunidade de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro, um dos jovens que discursou para o papa declarou claramente: "Estão escondendo do senhor o que nós vivemos aqui". Por isso, o papa pediu aos governantes que não maquiassem a realidade para torná-la bonita para os que vêm de fora, enquanto a população local sofre horrores para sobreviver. Essa maquiagem continua sendo a operação normal para apresentar o país aos turistas que vêm de fora. É mais um desafio superar esse modo de agir e, de fato, ter uma vontade política de transformar a realidade sofrida dos pobres e não apenas disfarçá-la. 

O Brasil está mergulhado em uma crise política que a maior parte da sociedade internacional identifica, cada vez mais, como golpe parlamentar. O mundo, dominado por um sistema social e econômico desigual e cruel, o sustenta através de um clima de insegurança permanente. Depois dos ataques terroristas em Nice, na França, as autoridades reforçam os esquemas de segurança nas Olimpíadas no Rio de Janeiro. E até quem viaja de avião dentro do Brasil já sente medidas mais restritivas de segurança. Apesar disso, o esporte continua dando sinais e exemplos de convivência democrática e fraterna. Nesses dias, no futebol entre Portugal e Alemanha, o jogador que fez o gol decisivo da vitória nasceu na Guiné-Bissau. E Cristiano Ronaldo dedicou a vitória a todos os imigrantes. Um sinal bom contra a xenofobia e o racismo. Quem sabe, a Europa aprende a passar da convivência nos esportes à convivência cidadã? Nos jogos olímpicos, essa vocação de paz e universalidade é fundamental.

Sem dúvida, já era de se esperar que grupos ligados à repressão tentassem criar um clima de terror. Espalham que os grupos de esquerda (sempre eles) tentarão fazer protestos e que as favelas (sempre o mundo dos pobres) estão cheias de africanos suspeitos e possibilidades de violência. Em 2014, a própria imprensa criou esse clima pesado e negativo com relação à Copa Mundial de Futebol. Apesar de alguns  episódios de protestos, absolutamente legítimos em qualquer sociedade democrática e nesse caso muito fortemente reprimidos pela polícia, o evento da Copa do Mundo transcorreu de forma pacífica e o Brasil deu ao mundo inteiro a imagem de um país hospitaleiro e fraterno.

Embora tenhamos mudado para pior e o ambiente nacional seja mais repressivo, esperamos que, ainda dessa vez, predominem a paz e a irmandade internacional. É preciso que não aceitemos entrar nesse clima de pânico e prevenção que acaba em uma espécie de guerra preventiva, tão ao gosto de todos os que vivem da violência. Sem dúvida, no mundo atual, não se pode descuidar da segurança. As Forças Armadas garantem 38 mil homens e mulheres na vigilância do Rio de Janeiro nos dias dos jogos. No entanto, é importante apostarmos na paz e no diálogo entre os povos.

Para os diversos caminhos de espiritualidade, a competição não é um valor positivo. Ela deve ser substituída pela colaboração. No entanto, nos esportes, a competição com um time adversário tem um objetivo que vai além do vencer o outro. E todos acabam aprendendo com todos. Quase todas as modalidades de esportes são treinadas em comum e os/as atletas aprendem uns com os outros a se apoiarem e se fortalecerem juntos na luta comunitária. No Novo Testamento, a imagem dos jogos foi usada pelo apóstolo Paulo para falar da nossa esperança cristã. Ele escreveu aos coríntios: "Vocês não sabem que nos estádios, todos correm, mas somente um ganha o prêmio? Todos correm para conquistar uma taça (um prêmio). Para ganhar uma coroa corruptível, os atletas se abstêm de tudo. Nós fazemos isso para alcançarmos uma coroa que é imperecível" (1 Cor 9, 24- 25).


¹ Monge beneditino, escritor e teólogo brasileiro. Coordenador latino-americano da Associação Ecumênica dos Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT).

​Olimpíadas o outro lado