Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

Opinião: Casa(s) da Morte Nunca Mais! Ditadura Nunca Mais

4-04-2014
“No cativeiro, torturaram-me física e mentalmente, até o dia em que me entregaram à minha família, em precárias condições de saúde, traumatizada psicologicamente. Na prisão, tentei o suicídio para escapar das perversidades de meus carcereiros e para fugir das ameaças de morte lenta e de violência contra meus parentes”.

Esta é uma pequena parte do depoimento de Inês Etienne Romeu à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (1). O cativeiro citado é a conhecida “Casa da Morte” ou “Casa dos Horrores” – chamada sadicamente pelos militares de “Codão”, localizada na Rua Arthur Barbosa, nº 668, no bairro Caxambú, na cidade de Petrópolis. O lugar é de difícil acesso, com ruas apertadas, cuja inclinação atrapalha ainda mais a chegada. O lugar é sombrio, cercado por densa mata. 

A “Casa da Morte” foi usada como cárcere clandestino pelo Centro de Informações do Exército (CIE) durante a Ditadura Militar para torturar, matar e esquartejar pelo menos 19 presos políticos, entre eles alguns jovens com menos de 28 anos. Dos que formam levados para este local, Inês Etienne foi a única, depois de violenta tortura, a sobreviver. Ela só está viva hoje porque fingiu aceitar a proposta dos torturadores de tornar-se uma informante dos militantes, que se infiltraria nas organizações que lutavam contra a ditadura. Felizmente, mais uma vez a repressão mostrou-se ignorante, porque os três meses de tortura e as ameaças não serviriam para amedrontá-la. Pelo contrário, em 1979 Inês denunciou a existência da Casa da Morte.

O município decretou este lugar como utilidade pública desde 2013, como ação inicial para o processo de desapropriação, cujo andamento pode correr por cinco anos até a efetivação da ação pública. A luta do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis é para que a casa torne-se o “Centro de Memória, Verdade e Justiça”, e sirva de memorial em homenagem às vítimas da repressão e de símbolo para a luta pelos direitos humanos.

Incrível constatar que alguns moradores de Petrópolis não sabem da existência e da história desde lugar. Pior que isso, foi receber na rede social, depois de postar a foto desta casa, uma mensagem cheia de ódio e palavrões, escrita por um rapaz da cidade, dizendo que os mortos naquele espaço “foram pessoas desprezíveis e que deveriam morrer mesmo”. Isso reforça ainda mais a necessidade do resgate e exposição das memórias das vítimas da ditadura. Como Aleida Assmann nos alerta, as memórias podem ser instrumentalizadas, apagadas e preservadas. Por isso, não podemos deixar que este lugar de terror, torne-se somente um imóvel qualquer do bairro Caxambú. Aquela casa branca com muros de pedras lisas é a “Casa da Morte”, onde direitos foram violados e não podemos esquecer-nos disso! Que a Casa da Morte torne-se um monumento da memória cultural para que outros espaços de morte em nossos dias sejam denunciados e desarticulados.

O sangue e as lágrimas de nossos irmãos mortos em Petrópolis não foram derramados em vão. Suas memórias de resistência, bravura e luta, vivem!

Casa(s) da Morte Nunca Mais. Ditadura Nuca Mais!

Veja todo o documento:  http://migre.me/iDXnw

Kenner Terra integra a REJU-RJ, vive em Petrópolis, é membro da Igreja Batista e atualmente é estudante de doutorado em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

ditadura nunca mais casa da morte