Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Opinião: Eu gosto de usar saia

Embora já faça um certo tempo, gostaria de compartilhar uma experiência que tive na Rio+20. Era um lindo dia de sol e acontecia a caminhada do movimento de mulheres. Eu e mais duas amigas estávamos lá no meio da multidão, e eu estava usando uma saia. Tenho feito isso nos últimos tempos em algumas ocasiões. Naquele contexto, representava minha solidariedade e apoio aos ideais da marcha. Enquanto caminhava pelas ruas usando aquela saia, chamei a atenção e os olhares de muitas pessoas, afinal não é muito comum um homem sair pelas ruas com uma roupa culturalmente usada por mulheres. Mas foi no meio da multidão que me olhava com uma certeza estranheza e curiosidade que me deparei com outro homem que também estava usando uma saia. Era um indígena e sua “saia” era parte da cultura do seu povo, por isso, aparentemente, não causava tanta estranheza quanto a minha.

Eu gosto de usar saia, mas confesso que não a uso em todos os lugares. Não por questões de etiqueta ou constrangimento, mas sim pelo fato de que usá-la pode colocar minha integridade física, ou até mesmo minha vida, em risco. Como homem, ao usar uma saia, quebro normas estabelecidas por uma masculinidade paradigmática imposta a todos os homens. Usar saia me aproxima do que é identificado como feminino, logo, também sou identificado como gay. Isso, numa sociedade machista e homofóbica, pode trazer consequências àqueles e àquelas que não se encaixam em determinados padrões pré-estabelecidos. Nos grandes centros urbanos do Brasil, principalmente em São Paulo, onde moro, tem se tornado rotineiras agressões a pessoas LGBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), ou identificadas como tais. Ninguém está a salvo das meticulosas armadilhas da homofobia.

Mas o que é homofobia? É o preconceito, a discriminação e demais formas de violência cometidas contra pessoas LGBT por causa de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero.

Recentemente foi publicado o “Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil: o ano de 2011” (Clique aqui). Os dados são preocupantes. De janeiro a dezembro de 2011 foram denunciadas 6.809 violações de direitos humanos contra LGBTs, envolvendo 1.713 vítimas e 2.275 suspeitos. Os dados revelam uma média de 3,97 violações sofridas por cada uma das vítimas que vão desde agressões físicas até violência psicológica, por meio de humilhações e injurias.

As diversas formas desse preconceito estão inseridas no nosso cotidiano e, na maioria das vezes, de maneira tão sutil que nem as percebemos. Elas se materializam através de olhares reprovadores, piadas e comentários jocosos e, principalmente, pelo nosso silêncio perante atitudes que discriminam alguém pela sua orientação sexual, raça/etnia, origem geográfica, classe social e religião.

A religião tem sido combustível e instrumento de perpetuação da homofobia, principalmente no Cristianismo, religião majoritária no nosso país. Através de discursos inflamados, líderes religiosos fazem uso dos meios de comunicação para disseminar medo e antipatia em relação a pessoas LGBT.

Voltando à minha saia, e a do indígena que encontrei, a maneira como nos vestimos não é única e nem “natural”. Outros homens, em outras culturas e regiões do planeta, vestem-se segundo outras referências e, muitos, usam saias ou vestidos. Da mesma forma, a sexualidade também é condicionada por aspectos culturais e sociais. Vivemos em uma cultura que tem por modelo a heterossexualidade compulsória (a idéia de que todas as pessoas devem viver segundo um modelo de heterossexualidade ideal). Esse padrão estigmatiza e discrimina aqueles/as que não se enquadram nele para a manutenção de uma série de relações de poder (de homens sobre mulheres, de brancos/europeus sobre pessoas de outras raças/etnias, de ricos sobre pobres etc.).

Convido a pensarmos sobre o mundo como um lugar belo justamente pela diversidade de raças/etnias, religiões, origens geográficas e orientações sexuais. O reconhecimento e respeito a essa diversidade questiona as hierarquias socialmente construídas e os privilégios de grupos dominantes. Por isso, há tantos ataques e agressões a determinados grupos e populações.

Como juventude ecumênica, temos a maravilhosa oportunidade de recriar novas formas de ser e de se relacionar, dialogar, conviver, ousar experimentar o novo. Não podemos deixar que a religião seja usada para estimular a violência e a privação de direitos dos cidadãos e das cidadãs de um Estado Laico. Pelo contrario, a religião deve ser um espaço no qual expressamos nossa criatividade e um instrumento para a construção de um mundo mais fraterno, pacífico, justo e igualitário.

O símbolo escolhido pelo movimento LGBT é o arco-íris. Ele nos mostra como as diversas cores podem ser harmônicas e belas. Sendo assim, vamos juntos/as pintar um mundo colorido?

 

Cesar Barbato é estudante de teologia na Universidade Metodista de São Paulo, participa da Rede Ecumênica de Juventude em São Paulo (REJU-SP) e da Igreja Luterana (IECLB) em Santo André (SP).