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Opinião: Homenagem aos "sem nomes"

2-04-2014
Há mais ou menos um ano e meio atrás vivi um dia atípico, com uma das sensações mais estranhas que nunca havia sentido até então.

Era 2 de novembro, feriado do dia de finados. Apesar de já ter sofrido com perdas próximas, nunca havia estado em um cemitério no dia de finados. A experiência estranha já começava aí. Mas mais estranha que isso, era avistar a imagem daquele lugar. Não estava sozinha, havia muitas pessoas ao redor, gente comum, gente da imprensa, gente da igreja. Muita gente. Todas pelo mesmo motivo que eu. Então, eu vi aquele espaço, sem lápides ou túmulos, nem flores ou faixas, ou qualquer outro tipo de cortejo. Aparentemente era um monte de terra. Só isso.

Só isso? Aos olhos dos que são cegos à realidade, sim. Aos olhos dos frios, dos brutos, ouso até mesmo dizer tolos, sim, era apenas um monte de terra. Eu não. Tanto eu quanto todas aquelas pessoas a minha volta víamos muito mais do que isso. Víamos histórias, sonhos, pais, mães, irmãos, amigos. Víamos força, esperança, víamos, sobretudo, vidas. Apesar do local onde estávamos dizer o contrário.

Sabe por que eu pude enxergar vida em meio à morte? Porque a morte não foi capaz de apagar o legado que aquelas pessoas enterradas ali, mesmo que não saibamos seus nomes, foram capazes de nos deixar. O exemplo de luta, de busca pela justiça, de perseverança e acima de tudo, o desejo de não se submeter a qualquer tipo de opressão que pudesse ser imposta. A busca pelo grito!

Hoje completa 50 anos que aqueles gritos começaram a ser calados. “Calados” para quem pensa que chicote pode calar alguma coisa. Chicote pode esquentar o traseiro, não calar a boca. Fica a dica para quem ainda pensa assim. E eu sei que ainda tem gente que pensa assim. 

E por que será que ainda tem gente que pensa deste modo? Bom, Hanna Arendt nos mostra que a maldade é tão tola que chega a ser banal. Chega estar impregnada, graças a um vazio de pensamento. Mas vejam, o fato do sujeito ser “dotado” de um vazio de pensamento, não o torna ingênuo muito menos indefeso perante a quaisquer erro que venha a cometer. A maldade no ser pode ser banal, porém, seus crimes não. A análise de Hanna é em cima do julgamento de um funcionário do governo nazista, Adolf Eichmann, responsável por encaminhar nomes de judeus para o extermínio, durante a “solução final” do nazismo.

Como a maldade é uma só, podemos trazer para nossa realidade esta análise. Existiram muitos Eichmanns aqui no Brasil durante a ditadura. Aqui, no Chile, na Argentina... E infelizmente, ainda existirão muitos Eichmanns. E é por isso, que hoje precisamos continuar gritando como nossos irmãos e irmãs gritaram no passado. É por isso que eu enxerguei vida e não morte naquelas valas comuns do cemitério da Vila Formosa naquele dia de finados. Nada do que fizeram contra aquelas e tantas outras pessoas, será capaz de apagar as memórias que ficaram. 

As memórias nos dão forças para continuarmos gritando contra a ditadura disfarçada que ainda nos resta. Nos inspiram a enfrentar qualquer tipo de autoritarismo imposto. Nos fazem enxergar a violência cometida contra nossa juventude negra, contra os pobres. Nos fazem “vomitar” tudo aquilo que nos é imposto goela abaixo.
Minha formação cristã me ensinou que a verdade liberta. A memória liberta e nos traz esperança. Deixo meu eterno respeito e admiração por todos os “sem nomes” das valas comuns, quanto àqueles/as de nomes conhecidos, e a esperança de que, como diz a canção, “irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra e um novo mar. E neste dia os oprimidos a uma só voz a liberdade irão cantar”.

#DitaduraNuncaMais

Natália Blanco é metodista da Vila Mariana, íntegra a REJU-SP e é estudante de jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

Foto: Ato Ecumênico em memória dos mortos e desaparecidos pela ditadura militar - Cemitério da Vila Formosa/ SP. Crédito: Natália Blanco

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