Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Opinião: Rio, Cúpula dos Povos, juventudes e fé

O que eu estou fazendo aqui? Era uma das perguntas que constantemente vinha em minha cabeça no caminho para o Rio de Janeiro, no dia 15 de junho de 2012. Sabia que iríamos participar da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20 (Conferencia sobre o Desenvolvimento Sustentável, da ONU). A cúpula dos povos foi o movimento articulado pela sociedade civil para se tornar uma voz, uma consciência critica, ante aos grandes mandatários, “representando” as nações do mundo, que iriam propor e decidir em relação à economia e sustentabilidade. Outro olhar era necessário, porque o que eles representam, na maioria das vezes, não são os desejos ou as necessidades do povo, mas, sim, os interesses de alguns poucos, na maioria dos casos beneficiando as companhias transnacionais que sugam os recursos naturais dos nossos países e geram riquezas (entendida nesse sistema como dinheiro) para um grupo pequeno e diferenciado, que cada vez deseja mais.

No final, minha pergunta estava relacionada com um pensamento arraigado em mim e, acredito, em muitos/as outros/as, talvez inconscientemente: não há muito que possa ser feito para melhorar o mundo. A ordem social e econômica é tão onipotente que qualquer coisa que façamos contra ela, é minúscula. Se por uma parte comprovei quão grandes são os poderes que nos esmagam continuamente e os pequeníssimos efeitos que os movimentos sociais parecem ter neste aterrador panorama; também entendi que esse pensamento é parte do problema, e que inclusive beneficia o sistema: primeiro porque desestimula nossa luta, tirando nossas forças para a ação, mas principalmente porque quando pensamos que não podemos fazer nada para mudar as coisas, somos cúmplices da continuidade e do funcionamento desse sistema tal como ele se apresenta: maligno e destruidor.

Ouvi, no transcurso dos eventos programados, múltiplas vozes apresentando um a um os problemas particulares: um homem caboclo falando da violência sofrida, uma mulher indígena rejeitando as grandes hidroelétricas que invadiam seu espaço, um velho trabalhador reclamando seu direito a terra, jovens denunciando os sistemas excludentes e injustos, etc.

Assim por diante, inúmeros rostos, cheios de historias que manifestavam dor, sofrimento, e o mais importante, consciência. Essas pessoas que pegavam o microfone para falar durante alguns poucos minutos, nos mostravam coragem e ousadia, resultado da consciência que eles e elas parecem ter cada vez mais: da sua realidade particular, do sistema global em que estão inseridos e dos seus direitos, inclusive do próprio direito a reclamar seus direitos. Será que nós - jovens de diferentes classes sociais, sexos, religiões e outras marcas de diferenças - temos consciência do nosso lugar no mundo; isto é, do poder que temos e do lugar que ocupamos, e de como essa situação nos coloca em relação aos outros e em relação aos problemas globais? Penso que esta é uma questão importante para se pensar, para refletirmos constantemente e não assumirmos como um grupo homogêneo, de pessoas que partilham unicamente uma faixa etária.

As historias que tivemos a oportunidade de conhecer eram múltiplas, diversas, porem, mesmo diferentes, estas histórias estavam radicalmente unidas pelos fios que uniram: a denúncia da opressão, o reclamo por justiça e o desejo de transformação. E essa é, talvez, a única unidade possível para nossa luta. Outra unidade, isto é, uma situação idealizada na qual a opressão se torna uma só, e por tanto se constrói uma única solução, pode torna-se um elemento negativo capaz de encobrir esses rostos variados, apagando as múltiplas vozes, e colocando nossos sonhos no nível da abstração e da generalidade. Contra tal ideia de unidade também devemos lutar. Não podemos colocar nossos diferentes rostos atrás de uma faixa gigante de justiça! É necessário visibilizar e assumir nossas lutas particulares, ouvir as dores de outras pessoas, pessoas de outras partes do mundo, de outras crenças, sexos e cores; pensar nas possíveis relações entre nossas dores e tentar estabelecer alianças e caminhos conjuntos de ação.

O marco de referência para a luta na cúpula foi a justiça socioambiental, que embora sendo um tema amplo, conseguiu congregar diferentes lutas, evidenciando conflitos pequenos, locais e concretos que de diferentes maneiras destroem a vida no planeta. A própria particularidade dos testemunhos e das vozes presentes nos permitiu enxergar o problema na sua dimensão global, assim como entender seu caráter estrutural. Nós, na cúpula dos povos, sabíamos desde o começo que a chamada “economia verde”, solução proposta pela Rio+20, não era mais que uma brincadeira, uma forma nada sutil de pintar “ecologicamente” um sistema econômico que funciona precisamente sob a premissa da exclusão e da destruição dos nossos recursos. Muito cedo, descobrimos que as soluções propostas pela conferencia da ONU ao problema, eram resultados de um diagnostico errado (Tissa Balassurya). Era uma clara maneira de manter o sistema intacto. Ninguém quer mexer com as estruturas do mundo, só curar algumas das feridas que produz. Isso é mais barato e confortável.

Confesso que a Cúpula dos Povos foi uma experiência difícil, também de desconstrução. Geralmente nós - que participamos de alguma maneira em movimentos sociais, religiosos e políticos - construímos uma ideia sobre nós mesmos e sobre nossa ação e acreditamos nisso quase que absolutamente.  Mas é no contato com outros grupos e com outras lutas que aprendemos a olhar para nós mesmos de maneira crítica, pelo menos, essa foi minha experiência. O que podemos fazer? O que pode fazer um grupo de jovens religiosos contra o poder do sistema? A pergunta parece retórica, mas não é. Na minha tradição religiosa, Jesus foi um jovem revoltado, que soube encaminhar sua ira e sua indignação contra os que negavam a vida e impediam a justiça, para ações radicais de amor, solidariedade, e ressurreição. Assim, o movimento que seguia o exemplo de Jesus nos primeiros séculos também entendeu que a luta pela dignidade da vida era o caminho da ressurreição (Ivone Gebara). Isso é um desafio para nós, hoje. Aliás, entender Jesus dessa maneira já é uma forma alternativa de pensarmos dentro de um sistema também excludente, que às vezes é nossa religião, e, portanto, de resignificar nossa tradição em busca de novas possibilidades para caminhar ainda empurrados pela nossa fé.

Hoje, acredito que como jovens (religiosos ou não) temos muitas coisas para fazer por um mundo melhor. Depois de participar na Cúpula dos Povos, posso ver com mais clareza nossa força, o poder que temos se construirmos redes, e se pensarmos juntos em horizontes possíveis de transformação. O mais extraordinário que possuímos é a nossa capacidade de sonhar. Isto é chave se considerarmos que o mais importante da luta é ainda acreditar que coisas diferentes são possíveis, ainda que não possamos vê-las, isso nós chamamos fé. E fé tem a ver com imaginação, e imaginação tem a ver com juventude, com um posicionamento, um estado de consciência, a nossa maneira de ver o mundo. Juventude é criatividade, com possibilidades abertas. Mas isto deve ser procurado dentro de nós, não nos é dado de graça. A única graça que temos é a vida; e por ela devemos lutar, dia-a-dia, lembrando que nosso campo de ação deve ser local e concreto.

Maryuri Mora é colombiana, vive em São Bernardo do Campo (SP) e integra a REJU-SP. A sua formação é em teologia, com mestrado e doutorado - em andamento - em Ciências da Religião, pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

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