Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

Pelo fim da intolerância: religiosas, religiosos e pessoas sem religião, fazem ato em Itaquera

30-03-2015

Passeata defendeu que se saia dos locais de culto para promover o respeito

Por Arthur Gandini

“Desejo que todos nós unidos, independente da religião, cheguemos a um Deus só, um Deus verdadeiro no qual temos muito respeito. Temos que nos respeitar.”

Foi com essa fala do Pai Diney que começou no domingo (22), por volta das 15h, o 2º Ato Contra a Intolerância Religiosa no terreiro Ilê Asè Maroketú Ogùn e Osòsse. O destino da passeata no centro de Itaquera foi a paróquia Nossa Senhora do Carmo, na mesma região.

Com o lema “Na mesma fé, no mesmo Axé”, o objetivo consistiu em unir pessoas de diversas religiões contra a intolerância religiosa e em defesa do Estado laico. Movimentos religiosos e de juventude, como o IPDM (Igreja - Povo de Deus em Movimento) e o Levante Popular da Juventude, se uniram para organizar o evento.

Após a apresentação de todos, um louvor a São Jorge e o canto do Hino da Umbanda no terreiro, os participantes do ato foram às ruas junto a um carro de som usado para tocar músicas e promover discursos.

“É preciso construirmos, com toda a diversidade, uma casa comum realmente justa para todas as pessoas e para a Criação”, disse a participante da Reju (Rede Ecumênica da Juventude), Raquel Catalani, em referência à ideia do ecumenismo. “Amém, axé, awere, aleluia!”

Janelas
Em outro discurso durante o ato, o judeu Yossef Lanza citou o rabino Henry Sobel para defender que a função do judaísmo não é tornar judeus todos no mundo, mas tornar o mundo “mais humano”.

Lanza também citou Michel Schlesinger para defender que os religiosos não restrinjam a vida aos locais de culto. “O rabino diz que a parte mais importante da sinagoga não é onde está a Torá, não são os bancos, mas os vidros, a janela, pois é dali que você vê o lado de fora”, disse.

“Quando você sai desse ambiente, vai para o mundo e leva a mensagem de um lugar melhor. É nisso que consiste a mensagem religiosa de qualquer religião”, concluiu.

Franklin Felix, membro do Movimento Espírita pelos Direitos Humanos, usou o carro de som para dar opinião semelhante. “Não adianta ficar aplicando passe, orando, enquanto tem gente precisando lá fora, jovem negro sendo exterminado na rua na calada da noite”, criticou. “Somos um povo pacífico que acredita no amor. Que assim seja, graças a Deus.“

Para Eduardo Brasileiro, participante da católico romana Pastoral da Juventude, a geração atual de jovens hoje tem facilidade para tolerar as diferenças com o outro, mas as religiões podem atrapalhar.

“Dependendo dos ritos, do dogma, (os jovens) acabam sendo levados a serem intolerantes às diferenças. O mundo é plural, na internet, na televisão, ele se mostra plural. Pena que nas religiões, ainda existe um campo de intolerância por um medo de perder o fiel. O ecumenismo quer dialogar, produzir um modo de ver Deus no plural”, defende.

O ato na metade do caminho teve conflito com a polícia militar, que não quis deixar os participantes subirem rua na contramão para chegar mais rápido à paróquia católica e multou o carro de som.

Para o pároco da comunidade, Paulo Sérgio Bezerra, houve demora para solicitar escolta da PM para a passeata e por isso não houve apoio oficial. Entretanto, os policiais da região que entraram na discussão poderiam ter facilitado o ato e permitido a subida da rua, segundo ele. “Faltou bom senso”.

Intervenção
A manifestação também contou com a participação de atores do coletivo teatral Quilombo que simularam cenas como uma bruxa sendo queimada na Idade Média, um pastor impedido de falar e uma mulher “chutando macumba”.

Para o ator Vinicius Brasileiro, a arte pode ajudar as pessoas a refletirem sobre a intolerância religiosa, algo às vezes difícil de se fazer. “Isso é uma coisa da sociedade capitalista, essa questão do individualismo”, disse Vinicius. “A gente é muito pautado por nós mesmos. Cada vez mais perde o senso de coletividade”, afirmou.

Presente também na passeata, o ex-deputado estadual Adriano Diogo (PT) alertou para o aumento da intolerância religiosa influenciada por um Congresso com uma bancada evangélica conservadora.

“Nós estamos vivendo uma situação dramática de perseguição religiosa, até com grupos paramilitares dentro de igrejas”, disse em referência à Igreja Universal do Reino de Deus. “Os cultos de matriz africana estão sendo perseguidos. Esse parlamento não serve para nada. Não representa ninguém.”

A representante do Levante Popular da Juventude, Priscila Cardoso, também questionou o Congresso. “Mais de 50% da população é negra, mais de 51% é mulher. Não temos mulher, negros, índigenas, comunidade LGBT sendo representados no Congresso. Precisamos fazer uma Reforma Política, uma constituinte para ontem”, defende.

Já Cristiane Alves, do grupo ecumênico Koinonia, fez protesto contra a homofobia antes de todos entrarem na paróquia católica.

“A homofobia tem se tornado uma prática frequente de pessoas que têm de amar um amor único. No amor, a maior expressão do sagrado, não cabem essas regras”, afirmou a jovem. “É mais forte que a morte. Que nós não fechemos as portas das igrejas e dos terreiros para esse povo.”

O ato terminou com falas finais de representantes dos movimentos dentro do templo. O pároco foi aplaudido por abrir as portas da comunidade para todos e a assembleia dançou e festejou antes de sair para um mundo com talvez um pouco menos de intolerância.

religião estado laico intolerância ato