Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

Pouca cruz para muita espada

24-07-2015

Por Elton Tada*

O Papa recebeu um crucifixo comunista. E daí? Desde quando a grande mídia faz parte da controladoria dos presentes papais? Não me considero a pessoa mais desconfiada do mundo, pelo contrário, até demoro para perceber se alguma muchacha está flertando comigo, mas acho que tem alguma coisa suspeita pairando no ambiente, e não parece ser amor.

O senhor já idoso é um tanto quanto simpático. Deixa os ouros guardados em casa e sai pra tirar foto com cruz de latão no peito. Não quer ser nobre. Não daria conta. O sangue latino não permite. Faz questão de ser simples, mas isso não seria milagre: simples é a exata forma que o padre há de ser. Sendo jesuíta – com aquele fardo de ter ferrado com a vida dos indígenas das terras de cá – quis chamar-se Francisco. Francisco, caro leitor, é nome bom. Gera uma empatia danada. Quem de nós não se sente um pouco Xico na vida?

O Evo é Juan Evo Morales Ayma. Tem a mesma aparência que vários desses homens que sempre vemos vendendo artesanato na rua, ou até daquele pessoal que foge do rapa nas ruas do Braz. É o tipo de gente que o brasileiro dificilmente nota. E quando nota reclama. E assina a reclamação com seu sobrenome europeu. E segue querendo ser Brasil.

Morales é presidente, mas era sindicalista. Plantava coca. Sabe o significado de uma foice. Certamente sabe também qual é o peso de um martelo. Não sei se ele sabe quem é Jesus para crucificá-lonessa cruz de pobre. Também não sei se importa, pois já vi cada tipo estranho de Jesus em minhas jornadas teológicas que não ousaria relatar.

Não creio que eu seja o cara certo para dizer se o crucifixo comunista foi um bom presente para Francisco. Eles que são chefes de estado que se entendam. Mas, suspeito largamente que Bergoglio também não se entenda como digno de fazer esse julgamento. Talvez, nem mesmo o Evo queira sentenciar a correção de seu ato. Sabemos, sim – e muito – a opinião do Jabor, do Boechat, do Bonner, e até do louro José. Quem são vocês, caros jornalistas da mídia maior? Quem vocês pensam ser?

Que a graça do senhor Jesus Cristo nas múltiplas cruzes, o amor de Deus que é tolerante, e a comunhão do santo espírito que resgata os corações neuróticos dos líquidos dias que testemunhamos, esteja conosco, convosco e com eles todos. Que haja perdão para o presidente que quis o cristo no símbolo ideológico da comunhão. Que haja perdão para o papa que ensina um Cristo de aceitação. Que haja perdão até para os tagarelas das mídias rasas de plantão.

E que haja muito mais perdão, pois até onde eu sei, pecado mesmo é representar judeu com cabelos loiros e olhos azuis. Não, o Jesus histórico não é italiano.

*doutor em Ciências da Religião pela Umesp, professor universitário e cronista do Jornal O diário do norte do Paraná.