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Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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"Proclamai os grandes feitos do Senhor": Unidade, Nossa Utopia

12-05-2016

Por Sandson Rotterdan¹

Quando Thomas Morus escreveu sua obra “A utopia”, talvez não imaginasse o quanto aquela sociedade perfeita descrita por ele nos faria pensar e sonhar outra realidade. Também Agostinho de Hipona coloca-nos um grande ideal com “A Cidade de Deus”, fundada no amor como princípio da sociedade. Os escritos bíblicos provocam-nos em direção a um convite de unidade: “vendiam tudo e colocavam aos pés dos apóstolos” (At 4,35); “a Igreja é um corpo com vários membros” (1 Cor 10); “haverá um só rebanho e um só pastor!” (Jo 10,16).

Assim, a unidade cristã talvez seja nossa grande utopia, nossa sociedade ideal, nossa Cidade de Deus onde o amor supera o egoísmo. Mas, por que chamar a unidade de “utopia cristã”? Um olhar descuidado ou demasiadamente institucionalizado sobre nossa história cristã talvez aponte que, se desejamos tão ardentemente a unidade, é porque nunca a tivemos. Pedro e Paulo não chegaram a uma unidade institucionalizada com o Concílio de Jerusalém. Vários cristianismos coexistiram na Antiguidade. Os minoritários foram extintos em nome da “reta e sã doutrina” (que não implica necessariamente em caridade). Essa exclusão, por vezes, implicou em intrigas, assassinatos, saques. A Reforma foi mais um capítulo de nossa perseguição a nosso sonho: diante do que se transformou o cristianismo de Roma, tem-se uma tentativa de voltar ao Evangelho. Mais algumas intrigas, conchavos em nome de Deus (sic) e continuou nossa saga em busca da unidade. Às vezes, assinamos alguns acordos aqui e ali, dizemos concordar em alguns pontos, reconhecemos erros passados. Às vezes, é preciso reconhecer que a perseguição de nosso sonho deve estar para além de acordos firmados em papel, afinal, o que nos faz cristãos é um acordo mais sutil e mais fino: acreditamos que, naquele que é a razão da nossa fé – Jesus Cristo –, está a aliança de Deus conosco.

Talvez, o grande feito do Senhor que podemos proclamar é que a possibilidade de ser cristãos transcende as nossas institucionalizações e ortodoxias. Deus nos concedeu uma pluralidade que não se anula diante daquilo que nossas instituições definem como certo e errado. É possível construir uma caminhada cristã plural onde cada confissão contribua desde a sua perspectiva para um olhar mais amplo acerca da verdade na qual todos acreditamos, em que a Palavra se fez gente e habitou a amplitude de nossos desertos. Nunca teremos uma unidade enquanto vivermos a história! E esse é um grande feito do Senhor! Ele nos guiará em direção à utopia! Conduzirá nossos passos e nos alentará sempre quando nossas instituições, movidas por desejo de poder, retrocederem no diálogo da construção da unidade.

Este é um grande feito do Senhor: fez de nós não um povo, mas povos que anseiam pela unidade. Nossa unidade é horizonte e motiva nossa conquista diária da Terra Prometida para toda a Criação. “De mãos dadas, a caminho, porque juntos somos mais!” A Cidade de Deus é construção na história até que cheguemos todos à unidade de fé, quando não mais precisarmos da fé, mas somente do Amor.

¹ Integrante da REJU, Filósofo, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião/PPGCR-PUC Minas.

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