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Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

Quero um Estado brasileiro cristão

28-06-2016

Fazia bastante tempo que uma postagem minha no Facebook não gerava tanta repercussão. E nem foi tanta assim. Isso porque a gente sabe bem que esta rede social nos “ajuda” não expondo nossas opiniões para as pessoas que pensam de maneira diferente de nós. É isso mesmo, a gente só acha legal quando as pessoas curtem o que postamos. Não é? Eu também sofro disso.

Essa foto e postagem são parte uma atividade escolar que se transformou em uma oportunidade para falar sobre o que penso a respeito da ideia de um Estado brasileiro cristão.

Nem todas as pessoas que são minhas amigas sabem que sou cristão, algumas que sabem não concordam muito com essa minha afirmação. Tanto por parte das cristãs quanto por parte das não cristãs. A gente é assim. Quer sempre dizer pro outro o que pode ser e o que não pode.

Além de cristão, sou evangélico. Sim, evangélico. Mas não sou só isso. Sou muitas outras características que não cabem em simples rótulos e que a gente precisaria de muitas horas de convivência pra nos conhecer. Defendo algumas causas que muitos evangélicos não concordariam e precisariam de muitas horas de convivência para entender. Assim também são as tantas pessoas que você concorda ou discorda diariamente.

Acho que a postagem que fiz, fez o Facebook ficar um pouco perdido sobre quem deveria ver minha publicação. No início, as pessoas que costumam se posicionar mais ou menos de forma semelhante a mim fizeram as primeiras visualizações e ficaram confusas sobre o porquê de eu ter escrito “Para que tudo seja melhor #QueroUmEstadoBrasileiroCristão” e algumas até me disseram que não entenderam isto.

Depois, outras pessoas que costumam pensar de forma bem diversa de mim começaram a curtir a foto e a frase talvez por concordarem. E aí eu fiquei pensando em quanta responsabilidade há no que falamos e em como nos posicionamos diante das pessoas. Isto é muito sério!

Quero propor uma troca nas palavras. E se eu postasse “#QueroUmEstadoBrasileiroUmbandista” como você reagiria?

Certamente estamos bem longe de termos um Estado que professe alguma fé (falo destas “fés” que encontramos nas religiões, já que a fé do Estado já há algum tempo é única e exclusivamente em Mamon, ou dinheiro – e em defesa de todos aqueles que o possui). Porém, qual fé religiosa está espalhada através das pessoas que estão nos locais de mando das instituições políticas, escolas, tribunais, postos de saúde etc? Quais símbolos religiosos estão sempre pendurados nas repartições públicas? Que tradições são tidas como “normais”?

Obviamente que não é a umbanda, o budismo, o candomblé ou o islã. Sim, o que está espalhado por todos os lados no Brasil é a fé cristã. Sejam pelos nomes das ruas, praças, datas comemorativas do calendário etc. Sejam pelas orações feitas em organizações do terceiro setor que recebem financiamento dos governos para prestarem serviços públicos, nas palavras grafadas nas cédulas de dinheiro, nos discursos de formatura etc.

Será que o lugar da política deveria ser este lugar aonde a maioria vence no grito, na imposição, na marra, à força? Muitos pensam que sim, e assim agem diariamente para beneficiar os “seus”. Na política o que se faz deveria ser algo muito parecido com a arte. Imagine um quadro sem variedade, uniforme. Não seria um quadro. Seria uma parede. Sem diversidade. O que fazemos quando uma parede que desejamos ser toda de uma só cor apresenta outras cores?

Dizer “eu quero um Estado cristão”, no meu caso, evangélico ou desejar um Estado que professe qualquer outra expressão de fé, teria que vir seguida de outras afirmações como “eu quero que as pessoas que professam outra fé sejam presas ou mortas” ou ainda “que sejam impostas sérias restrições a existência de suas religiões ou expressões de fé sendo passível aplicação de multa”. Seria preciso uniformizar as pessoas. Fazer com que todas acreditassem da mesma forma. E isto nunca foi e nunca será algo que fará tudo ser melhor.

Não me parece que Jesus, pra mim Deus e pra muitas religiões um referencial, gostaria que a gente prendesse pessoas ou as matasse ou ainda que impuséssemos sérias restrições às suas liberdades, simplesmente porque creem de maneira diversa. Aliás, este foi o motivo que levou Jesus a ser crucificado, pensar diferente da religião que Ele “deveria seguir” e expressar esse pensamento.

É significativo que a cruz até Jesus foi um instrumento de tortura e de dor. Depois dele ela se transforma num símbolo de vida e esperança. Entendo que nossas ações, de quem procura imitar Jesus, deveriam ser assim também. Transformar o mal em bem. No entanto há algumas pessoas que se dizem cristãs defendendo torturadores. Outras, que se alegram na dor de quem perdeu seus entes queridos nas diversas violências causadas por alguém que tinha mais poder ou que era de alguma forma a maioria. Infelizmente algumas dessas pessoas estão nos lugares de poder de nosso Estado brasileiro. Pedir, exigir, desejar um Estado cristão é querer o sofrimento de muitos que não são cristãos. E certamente de muitos cristãos que não seguem a linha dos que estariam no poder deste Estado religioso.

Com certeza mais do que depressa alguém diria que isto é o correto! Vivemos num momento de extremos no qual respostas simples são dadas a problemas complexos. É preciso muito, mas muito diálogo. Entendo que vivemos em bolhas. Sejam bolhas virtuais ou físicas. Sejam as bolhas de quem concorda com a ideia de um Estado religioso, sejam as bolhas de quem discorda.

As redes sociais são as mais novas bolhas. A tevê comercial, o rádio comercial e os grandes jornais comerciais passam visões basicamente de um mesmo ponto de vista da sociedade, uma grande bolha que é cheia do ponto de vista de seus donos (que não somos eu nem você que me lê, provavelmente) e isto só nos deixa uma saída: procurar as bolhas alheias, as bolhas dos outros.

Mas pra eu ver a bolha do outro é preciso sair da minha. E essas bolhas só se estouram de dentro pra fora. Desejando ouvir a opinião de quem pensa diferente. Frequentando lugares (físicos e virtuais) onde as respostas serão diferentes daquelas as quais estamos acostumados a ouvir. No lugar onde eu viro a minoria e os outros se tornam a maioria, onde eu que normalmente tenho privilégios e poderes, me torno o menor. Onde eu escuto mais e falo menos.

É urgente estourarmos as nossas bolhas.

Daniel Mariano - Facilitador REJU SP 

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