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Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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REJU-SP participa de evento sobre Religião e Homoafetividade (14/6/2011)

14-06-2011

A escolha de um texto bíblico para tema da Parada Gay deste ano – “Amai-vos uns aos outros” –  não tem gerado apenas polêmica com lideranças religiosas.  Em meio às fortes reações contrárias dos grupos mais conserva-dores, surgem surpreendentes iniciativas de diálogo e cooperação. Na dia 9 de junho, um templo da Igreja Anglicana no centro de São Paulo, a Paróquia da Santíssima Trindade, foi o local escolhido para um painel sobre “Religião e Homoafetividade”. Na mesa de debates estavam um padre católico, um pastor luterano e uma sacerdotisa do candomblé, sob a moderação de um membro da Igreja Metodista. Além do apoio da Igreja Anglicana, o evento contou com a coordenação da Rede Ecumênica de Juventude (REJU), da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT) e da organização ecumênica Koinonia, que atua na defesa de direitos humanos. Os próprios organizadores da Parada Gay 2011 professam fé religiosa: o presidente Ideraldo Beltrame pertence à Igreja Anglicana e o vice-presidente, Fernando Quaresma, ao candomblé.

O metodista  Anivaldo Padilha, associado de Koinonia, fez as apresentações dos convidados lamentando a ausência de líderes religiosos contrários à temática da Parada Gay e à aprovação do Projeto de Lei 122, que torna crime a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, equiparando-a à discriminação de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. “Convidamos pessoas para nos ajudar na reflexão. Fizemos um esforço para que a mesa fosse mais plural, mas alguns religiosos nem nos deram retorno”, disse ele.

Quem deu início ao debate foi a representante do candomblé, Mãe Maria Emília –  ou, no idioma iorubá, como preferem os adeptos da religião, Iyá Maria Emília.  Sacerdotisa da tradição Ketu,  a ialorixá é presidenteAssociação Federativa da Cultura e Cultos Afro-Brasileiros de São Bernardo do Campo (SP) e coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde – Núcleo SBC. Para ela, a identificação do candomblé com minorias marginalizadas da sociedade é uma natural conseqüência da própria história de discriminação vivida pelos adeptos dos cultos afro-brasileiros. 

A sacerdotisa afirmou que a sexualidade é encarada de forma “tranquila” pela religião que entende o relacionamento sexual como uma positiva e necessária “troca de energia”: “energia tem que ser trocada, mas não determinamos como isso deve acontecer. Longe de nós dizer se esse ou aquele está correto”.  Antes mesmo que o debate fosse aberto ao público, Maria Emília dispôs-se a responder a uma pergunta que ela afirma recorrente:  “Por que no candomblé tem tanto homossexual?” Segundo a ialorixá,  o candomblé é “uma religião que acolhe” os homossexuais, ao invés de repeli-los com um discurso moralista.

Mas para o teólogo católico James Alison, padre e autor do livro “Fé Além do Ressentimento: Fragmentos Católicos em Voz Gay”, não é só no candomblé que se vêem muitos sacerdotes homossexuais: “A proporção de gays no clero é muito maior do que na população em geral”, revelou ele. No âmbito católico, a diferença é que, enquanto o laicato parece estar “avançando bem em relação à matéria”, no clero impera o silêncio. Inglês de origem, Alison resumiu, em seu idioma natal, a forma pela qual a Igreja Católica lida com a questão: “don´t ask, don´t tell” (“não pergunte, não conte”). 

Segundo o teólogo, a homossexualidade tem implicações em uma das doutrinas fundamentais do ensino católico: a relação entra a Graça de Deus e a natureza humana. Ele explicou que, segundo o catolicismo, a partir do “pecado original”, todos os seres humanos vivem de uma maneira “distorcida”, contrária ao propósito de Deus para seus filhos e filhas. No entanto, a natureza humana é, em si, algo bom que pode ser “aperfeiçoado” pela Graça divina. “A graça de Deus não age abolindo a natureza humana, mas levando-a ao seu “florescimento” ou aprimoramento de seu potencial. Enquanto a Igreja Católica simplesmente negava a existência da homossexualidade, considerando os atos homossexuais como distorções de comportamento provocadas pelo pecado original, a doutrina da Graça seguia sem abalos. Para ser reconhecido como um filho redimido, bastava que o homossexual contivesse seus impulsos. Hoje, no entanto, a situação mudou: “Não dá para separar os atos do ser como se fazia outrora. Homossexuais não são pessoas hetero defeituosas”, afirmou o padre.  O que traz para a doutrina católica uma questão crucial:  se a ação da graça divina parte daquilo que se é, de que maneira se daria o aprimoramento do homossexual rumo ao propósito divino de redenção da natureza humana?

“A gente passou muito tempo tentando justificar nossa mera existência”, confirmou o teólogo André S. Musskopf, membro da Igreja Evangélica de Confissão Luterana e pesquisador da temática de gênero e sexualidade. “Não preciso mais fazer isso porque sei que Deus me ama, a Bíblia me ajuda a ser melhor e tenho direito ao exercício da minha fé”, afirmou ele. André Musskopf disse, ainda, que muito já se escreveu na tentativa de “explicar” a homossexualidade e que ele evitaria argumentações baseadas em textos bíblicos.  “Por exemplo, o livro de Levítico afirma que é ´abominação´ o homem deitar com outro homem. O mesmo livro também diz que não devo comer peixe sem escamas. Por que deitar com homem ainda é abominação e comer peixe sem escamas não é mais?”, questionou o teólogo. Para ele, a questão a ser realmente considerada é o controle que a ordem político-econômica exerce sobre a sexualidade e a religiosidade, o que explica a “virulência” cada vez maior das reações contrárias à conquista de direitos pelos homossexuais. “Estamos falando de controle de corpos para a manutenção de determinada estrutura de poder. Para se ter riqueza e poder, é preciso controlar os corpos das pessoas, controlar as formas pelas quais elas se amam, controlar o desejo. Não há como separar religião, sexo e política”, afirmou ele.

No momento do debate, Anivaldo Padilha voltou ao tema do poder simbólico. Para ele, a política é, de fato, a maior motivação do atual debate sobre homofobia. O Brasil estaria reproduzindo um fenômeno que já ocorreu nos Estados Unidos, com o apoio de religiosos fundamentalistas às plataformas políticas da direita.  “A direita está perdendo sua capacidade de articular um discurso e busca um tema capaz de mobilizar a população. Por conta do forte moralismo existente no país, este é um tema fácil de ser manipulado”, alertou Anivaldo. 

Preso e torturado nos anos 60, quando militava nos movimentos ecumênicos de juventude, por causa de uma denúncia feita por um bispo de sua própria Igreja, o metodista Anivaldo Padilha não abandonou nem a fé religiosa nem a militância social.  Por isso hoje, tem sido um dos mais ativos incentivadores do apoio evangélico à luta dos homossexuais pela aprovação de leis que lhes garantam o pleno exercício da cidadania. No dia 23 de junho a organização ecumênica Koinonia estará representada na Feira Cultural LGBT que acontece no Vale do Anhangabaú e, na Parada Gay do dia 26, Anivaldo estará à frente de um trio elétrico de religiosos de diversas denominações, também eles unidos em torno de um texto bíblico encontrado em 1 João 4.18: “o amor lança fora todo o medo”. “Quando falamos em homofobia, estamos falando de medo. Esperamos reunir um bom grupo de religiosos contra a homofobia e contra todas as formas de intolerância”, justificou.

 Informativo:
Suzel Tunes (revista entheos)
REJU SP
religião homossexualidade

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