Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

REJU-SP: Religião e violência – o quanto uma influencia a outra

21-03-2013

Clarisse Braga

Em um aconselhamento que eu fiz, uma mulher relatava sua violência simbólica, mas que, com certeza, refletia em seu físico. O discurso dela era "o que Jesus vai fazer por mim?”. Eu tentava mostrar que quem tinha que fazer alguma coisa era ela mesma. Até que um dia ela ganhou o livro ‘O poder da mulher que ora’ – uma ferramenta que proporcionou mais poder para resistir àquela violência. “[o livro] tem me ajudado tanto, estou ficando mais calma; inclusive, o pastor disse que ele é bom”, afirmava a mulher que vivia com a violência cometida pelo seu marido. Diante disto, o que a pastora vai dizer? – Revda. Metodista Lídia Maria de Lima

Pastoras, reverendas, religiosas e militantes responderam a essa pergunta desconstruindo o discurso sagrado que legitima a aceitação da violência durante a “Roda de Conversa: religião e violência contra as mulheres”, que aconteceu no último sábado (16/3), na capital paulista. O evento foi mais uma ação da Campanha “O amor lança fora todo medo”, realizado por KOINONIA-Presença Ecumênica e Serviço, Rede Ecumênica da Juventude (REJU) e Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade.

A apresentação comovente do Teatro do Oprimido da UNESP marcou o início das falas das participantes. Vestidas de branco e com baldes de água na cabeça, quatro mulheres entraram na roda cantando “Lata d’água”. Um silêncio profundo tomou conta do salão da Paróquia da Santíssima Trindade, talvez porque a referência remete ao sentimento de servidão que submeteu mulheres durante décadas ou apenas o ato de sentar e assistir esta cena traz imbuído um conformismo habitual.

Enquanto duas das atrizes colocavam-se paradas e de braços esticados, as outras duas escreviam em seus braços com batom vermelho estatísticas chocantes como “a cada 24 segundos, uma mulher é espancada no Brasil” e “a cada 3 minutos, uma mulher é violentada no país”. Circulando dentro da roda, uma delas segurava um cartaz que dizia “somos metade da humanidade e mães da outra metade”. Uma frase forte, revoltante e “imersa na culpabilidade feminina”, como reage a Revda. Lídia.

Além da Revda. Metodista Lídia Maria de Lima e somando conhecimento à roda, encontravam-se a Reverenda Anglicana Carmem Kawano, a representante da Fé Bahá’í Daniella Hiche, a Pra. Evangélica Ester Pires Brancia e a militante da Marcha Mundial de Mulheres Sarah Roure.  Esta composição mostrou-se perfeita ao discutir como a tradição/denominação religiosa reflete sobre o tema.

A primeira a ter a palavra foi a Revda. Lídia que admite a fragilidade do tema na igreja metodista: “A violência contra a mulher acaba ficando em segundo plano, pois as ações da igreja são centradas no discurso do homem”. Revda. Lídia acredita que muitas mulheres não relatam a violência sofrida no espaço religioso justamente por estar atrelada a uma invenção do homem coordenada por mulheres, a religião. “As mulheres procuram o aconselhamento dentro da igreja em busca de uma palavra de conforto diante à situação de violência, mas é o conformismo que elas encontram”, afirma a Revda. Lídia.

A Pra. Ester da Igreja Quadrangular deu voz à violência sofrida por mulheres ao relatar sua própria experiência. Pra. Ester conheceu seu marido na igreja, aos 14 anos. Casou-se com ele e com ele teve uma filha. No início, ela tinha que encarar diariamente a violência simbólica. Não demorou muito para tornar-se física. Por 20 anos, Pra. Ester aguentou, “aguentei por causa da minha fé”. Até que um dia, “eu sai de casa com a mala numa mão e minha filha na outra”. Sua história de superação é uma lição a ser aprendida por todas, inclusive, por aquelas mulheres que a procuram no aconselhamento. No entanto, não são todas que tomam uma posição frente à violência sofrida. “Deus as colocou como submissa, elas me perguntam ‘como posso me levantar diante uma autoridade?”, questiona Pra. Ester.

Para ela, a maior crítica religiosa reside no lema matrimonial “até que a morte nos separe”. As mulheres religiosas aceitam a violência, pois acreditam que o casamento é sagrado e devem aturar essa situação até morrerem. “O que morreu em você? A sua autoestima, o seu desejo de viver; é uma morte emocional”, afirma Pra. Ester.

Já para a Rev. da Igreja Episcopal Anglicana Carmem Kawano, a violência contra as mulheres não chega aos seus ouvidos como líder religiosa, pois o discurso anglicano é mais tranquilo e foge do patriarcalismo. Entretanto, a Rev. Carmem destaca o trabalho de acompanhamento e apoio às mulheres vítimas de violência realizado por reverendas e leigas anglicanas, em Recife – PE. “É claro que a relação não é igualitária, mas penso que o discurso não incita o machismo. Também não posso dizer que não temos problemas de violência, os casos apenas não chegam até nós, talvez porque tenhamos poucas reverendas e é difícil para mulher se abrir para uma autoridade masculina”, indaga Rev. Carmem.

Depois de uma rápida e clara apresentação da Fé Bahá’í – já que nenhum dos presentes a conhecia – Daniella Hiche afirma que não existem relatos de nenhum tipo de violência dentro da comunidade Bahá’í, mesmo porque seus princípios são baseados na igualdade de gênero. Apesar de observar resquícios de uma cultura ainda muito patriarcal e machista, Daniella propõe uma desconstrução de comportamentos: “No Brasil, vemos que quando tem alguma função no espaço religioso, são sempre as mulheres que são encarregadas da decoração e comida; isto gera toda uma reflexão através de consultas para reverter situações em que colocam as mulheres na cozinha; se valorizarmos o princípio de igualdade de gênero, a ação muda”. Para Daniella, não adianta estudarmos os escritos sagrados de uma religião se não entendermos primeiro o contexto em que está inserido.

Oferecendo um claro entendimento deste contexto, a última a falar foi a militante da Marcha Mundial de Mulheres Sarah Roure. Segundo Sarah, a violência contra a mulher é utilizada como ferramenta social de controle. “Todas nós mulheres que sofremos algum tipo de violência pelo simples fato de sermos mulheres”, denuncia Sarah, que acredita na legitimação de espaços inter-religiosos de discussão como foi a Roda de Conversa: “é claro que temos que discutir o quanto a igreja justifica essa violência, mas, ao mesmo tempo, ela cumpre o papel de porta-voz de denúncias através de uma dimensão social”.

A militante ainda apresenta casos do dia-a-dia em que a violência supera as barreiras da casa e avança nas ruas, nas bancas de jornal, nos comerciais. “Você acorda mais cedo, prepara o café, acorda a família, leva as crianças para a escola, volta, arruma a casa, busca as crianças, depois não tem tempo de fazer comida – mas não tem problema que vendemos uma comida pré-pronta – e no final disso tudo, se você não está feliz e satisfeita, não tem problema, porque a indústria farmacêutica vende uns comprimidos dos quais nós podemos resolver nossos problemas da alma e do coração”, relata Sarah. Seu raciocínio parte do pressuposto de que as mulheres não têm vontades e de que seus problemas são resolvidos com produtos. Esta é uma prática da violência.

Todas as participantes concordaram que a violência ainda possui um nível de tolerância muito grande na sociedade. E como afirma Sarah Roure, ela se reinventa e se recria todo dia. Se as mulheres foram por séculos submetidas aos discursos patriarcais e machistas proferidos pelos espaços de fé que encontram-se inadequados ao contexto em que estão inseridos, cabe à religião desconstruir e provocar velhos princípios que autenticam a violência física e simbólica contra as mulheres.

Todos os presentes na Roda de Conversa merecem destaque pela impecável participação na discussão acerca da influencia da religião no comportamento violento adotado pela sociedade. Reações, dúvidas, questionamentos e experiências foram compartilhadas dentro desta rede de solidariedade que se formou na manhã daquele sábado.  No entanto, como uma das participantes apontou, o nosso trabalho não termina no momento em que a Roda de Conversa foi finalizada, ele está apenas começando.

REJU-SP: Religião e violência – o quanto uma influencia a outra