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Resposta ao texto Monólogos que perturbam: silêncios e ausências na Teologia da Libertação

Querida irmã e companheira Maryuri Mora,

Antes de tudo, muito obrigado por essa sua contribuição ao debate e por interpelar aos teólogos da libertação com o seu texto incisivo e profundo: "Monólogos que perturbam: silêncios e ausências na Teologia da Libertação". Sem dúvida, quanto mais formos exigentes e críticos em relação a nós mesmos e à realidade, mais conseguiremos cumprir nossa missão, principalmente nesse contexto do mundo em que, como você tão bem expressa: já não bastam "categorizações homogêneas" e são visíveis "os limites das categorias analíticas que foram privilegiadas".

Metodologicamente, preferiria deixar que suas palavras penetrassem no mais íntimo do meu ser e em silêncio eu pudesse digerir mais tempo para ir até o fundo do poço e beber a água mais pura. Seria melhor esperar e somente depois de algum tempo reagir com alguma palavra, não para negar nada do que você afirma, mas para prosseguir a reflexão e, quem sabe, contribuir com outros ângulos de abordagem possíveis. No entanto, parece que uma coisa não exclui a outra. E talvez essa minha palavra possa ir fortalecendo um mutirão de pensamentos que se somem e ajudem a encontrarmos juntos uma porta de saída e libertação para a situação que você denuncia.

Em primeiro lugar, quero expressar clara e publicamente que, em geral, concordo com você. Sei que a linguagem profética e denunciadora, na maioria das vezes, não tem como fazer as nuances necessárias e as afirmações são expressas, como diz o evangelho em sim quando é sim e não, quando é não. Acolho isso em seu texto e me deixo interpelar pela sua provocação de irmã e companheira.

Quando digo isso, não o faço apenas como expressão de linguagem. Ao contrário: durante o encontro em Fortaleza, disse a vários companheiros e companheiras que, por várias razões, não gostei de minha participação ou contribuição ao encontro. Poderia ter sido bem melhor e mais profunda. Como o método escolhido para aquela noite em que conversei com frei Betto foi de uma entrevista ou bate papo espontâneo, acabou sendo improvizado. Algumas coisas foram boas, outras deixaram a desejar. Saí da conversa com a sensação de que, ao contar mais minha experiência (o Betto também fez isso), acabamos salientando mais aspectos próprios ao nosso caminho de religiosos que não podem ser a experiência de espiritualidade da maioria dos/das jovens ali presentes.

Tanto na minha fala, como na de outros irmãos teólogos que escutei, percebi pontos falhos e que precisariam ser mais conversados e que mereceriam um diálogo maior. Senti que isso era difícil devido à própria dinâmica de um encontro como aquele. Penso que na cultura desses encontros teríamos de romper com costumes já sacramentados e inventar outras dinâmicas mais baseadas no diálogo e na provocação recíproca e permanente. Teólogos da libertação ou não, somos todos formados e plasmados em uma sociedade hierárquica, desigual, piramidal e esses tiques e defeitos de fabricação aparecem nas palavras e no modo de ser de cada um. Não é fácil quebrar com esses paradigmas da desigualdade e do elitismo. Pessoalmente, luto contra isso em mim, na Igreja e no mundo. Mas, sei que ainda os tenho dentro de mim.

Mesmo tendo ido a Fortaleza para escutar, aprender e dialogar e desejando muito isso, de fato, em todo o encontro, houve pouco diálogo intergeneracional e poucas ocasiões para ouvir e aprender a experiência e os pontos de vista da geração mais jovem. Penso que as oficinas foram o melhor momento para isso. Eu mesmo participei da oficina sobre Espiritualidade e Ecumenismo, mas quem coordenou foi um teólogo jovem (Edward Guimarães) e uma teóloga evangélica (Romi Bencke). Eu participei como apoio para os outros dois coordenadores. Intervim na conversa como qualquer outro participante, fora um breve momento em que Edward me pediu para introduzir uma dinâmica de silêncio e meditação, no começo da tarde.

Você se refere a categorizações homogêneas em que ficamos aprisionados e é bom rever até que ponto isso é verdade e como caminhar para uma superação disso. Nas últimas décadas, Leonardo Boff tem sido a pessoa que abriu a Teologia da Libertação a todos os desafios e amplitudes de uma Ecoteologia Cósmica que até a década de 90 ninguém desenvolveu. Na ASETT (Asociación Ecuménica de Teólogos/as del Tercer Mundo), temos trabalhado uma Teologia da Libertação Pluralista que incorpore paradigmas de outras tradições religiosas e culturais. De modo algum ficamos restritos às categorias sociais de pobre e oprimido dos primeiros tempos da TL. Também desenvolvemos o diálogo e inserção nas teologias negras e índias e com o grupo de mulheres que aprofundam as teologias feministas a partir da realidade da América Latina. Estamos ainda em diálogo com teólogos/as europeus e asiáticos/as que aprofundam teologias neocoloniais. Não digo isso para me autojustificar e sim para expressar que estou aberto e desejoso de incorporar os novos critérios e categorias que você me indicar.
Você tem toda razão de que, no encontro de Fortaleza, fora das oficinas, temas como o corpo, a sexualidade e questões de gênero não entraram. Saí daquela conversa com Betto na primeira noite me autocriticando por isso. Mas, como fazer isso em uma conversa de menos de uma hora e a partir da nossa história pessoal e sem que esses temas tenham sido provocados?

Tenho a impressão de que sobre isso, sem dúvida, a palavra tem de ser de vocês jovens. Nós, mais velhos, temos de escutar, acolher e aprender. De fato, não sinto nem a mim, nem a meus irmãos, como dinossauros. Escuto isso como brincadeira. Dinossauros, além de antigos (velhos) são extintos e nós, companheiros da teologia da libertação, continuamos a luta e queremos ir até o último suspiro. E tanto de minha parte, como dos meus irmãos teólogos mais velhos, penso que há uma opção e busca de nos renovar e dialogar. Se nesse encontro de Fortaleza e no dia a dia da vida, como você diz "não houve e não há interlocução real", seria importante discernirmos as responsabilidades: se nesse encontro e em outras ocasiões, somos nós, os mais velhos que impedimos ou dificultamos isso, se temos sido arrogantes ou dogmáticos. Estou colocando isso não para me defender, mas para levar a sério a interpelação que você provoca.

Se constatamos que faltou diálogo e interação recíproca, sem dúvida, a responsabilidade do grupo mais velho e mais experiente é maior e deve ser explicitada. Mas, é bom também verificar se houve da parte da juventude uma explicitação disso, algo como um apelo que não foi satisfeito. Se isso foi assim, de minha parte, estou absolutamente disposto a me rever, pedir perdão e tentar aprender com você/s como fazer para mudar esse modo de ser.

Em Fortaleza, tive a impressão de que no plenário do encontro havia uma heterogeneidade que supunha métodos diversos e níveis de abordagem diferenciadas, o que em um encontro como esse é praticamente impossível.  Embora quiséssemos aprofundar as questões ligadas à Espiritualidade Libertadora, em alguns momentos, parecia que se tratava de um encontro de iniciação e não de um grupo que já está na caminhada e quer aprofundar teologicamente. E o encontro já foi provocado para tratar de Espiritualidades Libertadoras.

Talvez fosse o caso de, para o futuro, pensarmos encontros mais específicos e quem sabe, em um grupo menor, constituído de irmãos e irmãs jovens e alguns da velha geração, mas todos com essa tarefa de aprofundar os desafios da teologia e da espiritualidade hoje. Por exemplo, certamente, nós todos (mais velhos e jovens) ganharíamos em um encontro definidamente teológico e de reflexão entre pessoas que fazem teologia (como você diz tão claramente e que não devem ser só consumidores) para temas escolhidos e a puxados e aprofundados por vocês jovens com os quais a geração mais velha pudesse ser provocada, dialogar e se puder contribuir. De minha parte, na hora que quiserem, contem com minha participação nesse processo.

Novamente agradeço sua provocação e questionamentos necessários. E fico à sua disposição e dos outros/as para continuar esse diálogo de irmãos e irmãs.

Um abraço amigo do irmão Marcelo Barros

 Confira o texto que motivou esta resposta:
"Monólogos que perturbam: silêncios e ausências na Teologia da Libertação"
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