Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

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Sobre o estupro: corpus meum

Por Sandson Rotterdan¹

A Igreja católica celebra hoje a festa do corpo, festa da materialidade. Prolonga a ceia derradeira em que Jesus de Nazaré celebrava com seus amigos a festa da saída, da liberdade. Mas nessa ceia também se come as ervas amargas. Nessa ceia também se recorda a escravidão. Para quem foi escravo a palavra liberdade tem um sentido mais doce... aquilo que se deseja profundamente. Ter o próprio corpo. Meu corpo.

Interessante que na narrativa de João, Jesus teria dito que o corpo dele é verdadeira comida e o sangue verdadeira bebida. A espiritualidade cristã se alimenta, sob o véu do sacramento de um corpo! Espiritualidade da matéria. Matéria espiritualizada.

A celebração católica desse dia tem também um imperativo ético. Se é a festa do corpo, de um corpo que serve de alimento e bebida, urge cuidar dos corpos, sobretudo ser sinal de libertação para os oprimidos que têm roubado o direito de seu corpo. No mesmo dia da festa do corpo, uma jovem, uma mulher como tantas, tem usurpado o direito sobre o seu corpo. Isso  nos estarrece. Trinta homens, machos, violam o sagrado direito de um corpo.

A teologia sacramental tradicional católica nos recorda que o Sacramento da Eucaristia nos remete à cruz. A mulher é crucificada, mas nesse caso há uma diferença fundamental: ela é crucificada/estuprada sem nenhuma conotação redentora! A mulher usada por aqueles que, por simplesmente nascerem com um pênis, pensam ter o direito de gozar um corpo que não é seu, sem o consentimento da outra ou do outro, é mais uma crucificada da história.

A celebração da festa de Corpus Christi pode significar para além do redil católico. Convidamos  às irmãs e os irmãos, para denunciar e repudiar todo e qualquer ato contra as mulheres, as crianças, os pobres, LGBTs. É URGENTE fazer com que nossa pauta de enfrentamento às violências simbólica, psicológica, física, sexual, religiosa, patriarcal e moral contra as mulheres saia do papel e se transforme em compromisso libertador. Celebrar os corpos de maneira que nossos direitos sobre nós mesmos sejam respeitados e para que juntos, um dia, celebremos a festa da vida. Corpus meum. Meu corpo. Nenhum direito a menos.

Canais de denuncia:

Você pode viver seu compromisso libertador denunciando nos seguintes canais:

Na ouvidoria no site do Ministério Público do RJ (mprj.mp.br/cidadao/ouvidoria) É importante se identificar.

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¹ Mestre em Ciências da Religião, filósofo, teólogo e graduando em direito pela PUC Minas. Integrante da REJU Minas.

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