Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

SOUC 2016: "os altos feitos do Senhor" que pulsam nas vidas e lutas das Juventudes Ecumênicas

15-05-2016

Raquel de Fátima Colet¹

A memória histórica do Movimento Ecumênico (ME) é impregnada da presença novidadeira e instigadora das juventudes. Aliás, as primeiras organizações ecumênicas, originadas no século XIX, são suscitadas no meio juvenil, sendo estas também as pioneiras na produção de livros de oração e cultos ecumênicos. A inconformidade com a divisão, a escuta atenta da realidade sociocultural, o desejo de conjugar fé e vida na tessitura do diálogo e da cooperação moveram e movem as juventudes ecumênicas em seus posicionamentos e iniciativas. As/os jovens foram as sentinelas que ousaram lançar o olhar por cima dos muros levantados pelos cismas, divergências e desencontros interconfessionais e inter-religiosos, ajudando suas comunidades de fé a perceberem a contradição que há entre crer em Jesus e viver divididas/os. A ampliação e maturação deste processo foi estruturando e expandindo o que conhecemos hoje por ME, articulado em diversos projetos e organismos, traduzido em diferentes dimensões, entre elas, a espiritualidade.

Mais que a proposição da convivência e colaboração entre crentes, o diálogo ecumênico é uma atitude que envolve a fé, intuída, assumida e cultivada na experiência espiritual daqueles/as que o assumem. As travessias da unidade não se sustentam simplesmente por um acordo religioso, social, jurídico ou por uma parceria institucional, mas exigem encontro, pessoalidade, reconhecimento da/o outra/o, e tem na espiritualidade seu espaço de autencidade, fecundidade e profecia. Crer precisa nos mover a dialogar, a querer reconciliar nossas diferenças, a agir juntos/as para que, de fato e em atos, nos entendamos parte e responsáveis pela oikoumene, a Casa Comum de todos/as e para todos/as. Em referência à espiritualidade cristã, a dimensão dialógica não é uma opção ou um adendo, mas lhe é constitutiva: o Deus de Jesus Cristo é um Deus em permanente diálogo, como também vocaciona a dialogar. Esta interlocução não pode ser seletiva ou instrumentalizada sob o risco de desfigurar a identidade cristã. Neste sentido, a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC) é um tempo oportuno para encontros e diálogos orantes, e caminho aberto para as outras dimensões do ecumenismo. Ela nos ajuda a entender e assumir que a unidade que buscamos supera nossas disposições pessoais, institucionais, nossos esquemas e discursos, mas reside no Mistério que nos abraça e que é puro dom. Esta convicção é retratada no horizonte temático proposto pelas/os cristãs/ãos da Letônia para 2016: “chamadas e chamados a proclamar os altos feitos do Senhor”. Na lógica do abade Paul Couturier que, em 1935, tornou a Semana de Oração um evento universal: oramos juntas/os pela unidade “que Cristo quer e pelos meios que Ele quer”.

Uma possível releitura juvenil da SOUC 2016 nos leva a considerar, em um primeiro momento, a colaboração das juventudes letãs na organização das reflexões e do material, que se deu, especificamente, pelo Centro de Juventude Católica da Arquidiocese de Riga, capital da Letônia. Anualmente, esse Centro organiza um evento conhecido como “Caminho Ecumênico da Cruz”, que busca meditar a paixão e ressurreição de Jesus, contextualizada à realidade de seu país . A prece das/os jovens recorda a memória histórica ferida desta nação, o sofrimento de Cristo repetido nas perseguições políticas e religiosas, mas, também, a vida nova possibilitada pela resistência e cooperação ecumênicas. Foi no processo de independência e democratização do país na década de 1990 que as/os cristãs/ãos letãs/os protagonizaram, de forma peculiar, a experiência de “ecumenismo vivo” que os aproximou e os possibilitou caminhar juntas/os.

Parece-nos oportuno estabelecer uma relação entre este ecumenismo de resistência testemunhado pela Letônia e com nossa realidade atual, sobretudo em referência ao papel das juventudes ecumênicas, das quais a REJU tem sido uma voz eloquente e mobilizadora. A Rede carrega em sua história essa mística pascal de paixão e ressurreição, do sofrimento e da libertação, de entrega, doação e compromisso com a vida das juventudes, especialmente daquelas que padecem sob o peso das cruzes da violência, da negação de direitos; daquelas, cujos sonhos são abreviados ou enterrados nos túmulos das intolerâncias e do preconceito; daquelas que veem seus projetos de vida serem instrumentalizados por estruturas hegemônicas do mercado, da política e também da religião. O protagonismo das/os jovens expresso no envolvimento com as causas juvenis no espaço público, na militância sociopolítica e no acompanhamento das pautas do ME, a partir das igrejas e comunidades religiosas, são como sinais de luz da manhã da ressurreição. A mística do diálogo, vivida na teimosia festiva das trajetórias juvenis, de suas corporeidades, de suas utopias, é a força propulsora que rompe as cadeias da opressão e da intolerância, da injustiça ecossocial, dos conflitos de poder. É na potencialidade e na diversidade de cada um, e na possibilidade que essa diferença tem de transformar a própria vida e a do outro que a REJU situa sua essência e sua mística: “a nossa mística conjunta, a nossa mística plural que faz com que possibilidades surjam e que haja esperanças para as lutas de cada um e cada uma em diferentes cantos do Brasil” .

Os altos feitos do Senhor proclamados no meio das juventudes e por elas nos indagam sobre como nossas espiritualidades são comunicadas em nossas práticas dialógicas no interior de igrejas e religiões, e nas relações socioculturais entre crentes e não-crentes. Interrogam-nos se nossas vivências religiosas dão a conhecer um deus que legitima a divisão, a exclusão, a mentira e a morte; ou um Deus no qual cada ser humano reconhece seu valor e dignidade, no qual não há lugar para vaidades, exclusivismos e egoísmos. Em nome e sob o nome de Deus, o que temos feito e dito? Por isso, continuamos a orar pela unidade, e a nos empenharmos para torná-la visível na oikoumene que somos e na qual vivemos.

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¹ Filha da Caridade da Província de Curitiba. Doutoranda e Mestre em Teologia pela PUCPR, tendo como tema da dissertação de Mestrado “Rede Ecumênica da Juventude: memória, identidade e atuação no Movimento Ecumênico brasileiro”. rcoletfc@gmail.com

² SOUC 2016 – subsídio original.

³ COLET, 2016. p. 105.

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