Pela Promoção dos Direitos das Juventudes

Rede Ecumênica da Juventude (REJU)

Notícias

Um soco na cabeça

2-03-2017

A gente se acostuma a culpar a vítima pela sua própria desgraça: Roupa curta demais; bebendo demais; usando muito entorpecente; não sabendo se comportar; andando com os amigos errados; pedindo na porta errada; incomodando os clientes. A gente se acostuma tanto, que nem acha que está errado.

A gente se acostuma a dizer que é da luta; que é da própria luta; que não é racista; que não é homofóbico; muito menos transfóbico; que nunca foi fundamentalista; que não gosta de política, mas que ama ao próximo. A gente se acostuma tanto que nem acha que está errado.

A gente se acostuma com o noticiário que disse ontem que João Vitor morreu, ele tinha 13 anos e morreu com um soco na cabeça dado por um segurança; também morreram ontem três irmãs, Fabiane Horbach de 12 anos, Rafaela Horbach de 15 anos e Julyane Horbach de 23 anos, assassinadas a golpes de facadas pelo ex-namorado de uma delas; na semana passada foi Ítalo Ferreira, que tinha 10 anos, e morreu baleado por policiais após uma perseguição em um carro roubado; no mês passado, Itaberli Lozano, de 17 anos, foi esfaqueado pela mãe e carbonizado pelo padrasto que não aceitavam que ele fosse gay; há dois meses atrás, Guilherme Silva, de 20 anos, foi morto pelo pai que era contra a militância dele em movimentos sociais de esquerda; no ano passado, Luana Barbosa de 34 anos, mãe, negra, lésbica e periférica foi espancada até a morte por três policiais militares. A gente se acostuma tanto que nem acha que está errado.

A gente se acostuma com o estado; com a burocracia do estado; com as leis do estado; com os privilégios do estado; com a polícia do estado; com as notícias do estado; com os limites do estado; com os golpes do estado; com a falta de saúde, educação, cultura e lazer do estado; com a falta de saneamento básico do estado. A gente se acostuma tanto que nem acha que está errado.

A gente se acostuma a comer esfiha; sushi; pizza; churrasco grego; tacos; burritos. E ao sair do restaurante, a gente se acostuma a se sentir incomodado com as pessoas que estão pedindo na porta errada; bêbadas demais; com roupas curtas demais; com os amigos errados; usando muitos entorpecentes; incomodando os clientes.

A gente se acostuma com o soco na cabeça; com o tiro no peito; com a falta de respeito; com a intolerância; com a perseguição ideológica; com a segregação racial; com a violência policial; com os gays mortos; com as mulheres mortas; com os jovens negros mortos; nossos amigos mortos. A gente se acostuma tanto, que nem acha que está errado.

A gente se acostuma...

...está errado!

Danilo Amaral - REJU SP

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