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Yemanjá e o cuidado com a Casa Comum

No dia 02 de fevereiro, popularmente comemora-se em diversos estados do Brasil, o dia de Yemọja (Yemanjá/Iemanjá). Esta data deriva do sincretismo religioso desta divindade negra africana, principalmente com a santa católica, Nossa Senhora dos Navegantes.

Venerada como “Rainha do Mar”, Yemanjá, da contração da expressão yorùbána Yèyé omo ejá "Mãe cujos filhos são peixes", segundo a mitologia dos Àwon Òrìṣà (Orixás) [1] em sua ressignificação no Candomblé da Nação Kétu, é filha de Olóòkun, associada ao controle dos mares, do poder e sexualidade feminina, do matriarcado e junto com Ọ̀ṣùn (Oxum), possuí o título de Grande ìyába (Mãe Rainha).

Segundo D. M. Zenicola [2], "representa o poder progenitor feminino; é ela que nos faz nascer, divindade que é maternidade universal, a Mãe do Mundo".

Ela exerce um papel muito importante na vida dos pescadores: "Iemanja desempenha duplo papel. De um lado ela é a mãe que propicia a pesca abundante - que controla o movimento das águas - da qual depende a vida do pescador" [3]. Além disso, é comparada com diversas lendas folclóricas brasileiras, como da Mãe d'Água Iara e diversas histórias de sereias marítimas.

Nos cultos afro-brasileiros, a posição de grande mãe é apresentada quase como única, ofuscando e até mesmo levando a perda de características de mulher guerreira e de amante ardorosa, em função de sua associação com Nossa Senhora, a Mãe Imaculada. Nesta perspectiva, a Deusa dos Mares, deixa seu lado africano original, assumindo características europeias; "Quanto mais o papel de Iemanjá como mãe se fortaleceu, mais foi se aproximando da mãe dos católicos, Nossa Senhora, com a qual é sincretizada nas diversas regiões do Brasil”. [4]

Sendo a divindade mais conhecida das religiões de matriz africana do país, suas celebrações anuais atraem para as praias milhares de adeptas e leigas destes cultos carregando consigo diversos “presentes”.

É comum vermos pessoas colocando barquinhos para fazerem seus pedidos, e dentro deles vão as oferendas que não são biodegradáveis. No entanto, o que muitas não se perguntam é: esta oferenda realmente agradará a “Mãe dos Mares”? Vamos Pensar! A embalagem de isopor além de demorar cerca de 150 anos para ser degrado na natureza, quando em pedaços é confundido com organismos marinhos, sendo ingeridos por peixes e cetáceos, causando-lhes graves danos ao sistema digestivo ou a própria morte. Os vidros dos perfumes e garrafas de champagne, segundo dados da UNICEF [5], levam cerca de quatro mil anos para se decompor, além de causar danos à fauna marinha e riscos de ferimentos aos banhistas.

Na atualidade, vários praticantes de cultos de matriz africana já tem iniciada uma consciência de recolhimento dos objetos não biodegradáveis, logo em seguida à oferenda religiosa.

Uma manifestação mais radical vem da renomada Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi, em seu artigo Presença, sim! Presente, não! afirma que, a partir deste ano, a comunidade do seu terreiro não mais colocará presentes nos mares.

Nosso desafio é compreender que podemos reverenciar o que nos é divino com cânticos ou oferendas biodegradáveis, respeitando nossa Casa Comum, e que isso não deslegitima nossos ritos ancestrais.

Na luta por justiça socioambiental, acreditamos na importância de questionamentos das praticas religiosas que visem resgatar a essência do Sagrado, contribuindo para um mundo mais sustentável e fraterno.

Yemọja ágbódò dáhùn ire

Ìyá mi,

Aseperiola.

Abẹrín èye lénu


"Yemanjá de dentro das águas, responde com o bem.

Minha mãe,

Que pode ser chamada para trazer prosperidade.

A que sorri elegantemente”.

Omi o! Odò Iyá!

Alexandre Magno da Glória (Candomblecista)

Cristiane Alves (Candomblecista)

Integrantes da REJU – Rede Ecumênica da Juventude

[1] Òrìṣà (No Brasil, Orixá): Divindades representadas pelas energias da natureza, forças que alimentam a vida na terra, agindo de forma intermediária entre Deus e as pessoas, de quem recebem uma forma de culto e oferendas. Possuem diversos nomes de acordo com sua natureza. (BENISTE, José. Dicionário Yorubá-Portugês. pg. 592. 2º Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014).

[2] ZENICOLA, Denise Mancebo. Performance e Ritual: a dança das iabás no xirê. 1ª ed. - Rio de Janeiro: Mauad X: Faperj, 2014.

[3] VALLADO, Armando, IEMANJÁ, a grande mãe africana do Brasil. Pallas. 1 edição. p 38.

[4] VALLADO, Armando, IEMANJÁ, a grande mãe africana do Brasil. Pallas. 1 edição. p 199.

[5] UNICEF: Fundo das Nações Unidas para a Infância. Disponível em http://www.unicef.org.br/

Justiça Socioambiental estado laico Yemanjá